|
|
 |
 |
May 18, 2008
Este era o problema do senhor Camponésio Campelo Suarcidago Aguiar
Diego Aguiar Vieira
Este era o
problema do senhor Camponésio Campelo Suarcida: odiava imediatamente todos
aqueles que conhecia.
Aos vinte e
três foi embora de seu lar e jurou nunca voltar. Os três anos seguintes foram
perdidos num estupor momentâneo da liberdade. Infelizmente, boa parte dessa
liberdade dissolveu-se junto com a primeira decepção amorosa (o equivalente a
uma batida da polícia no apartamento de um traficante inexperiente).
Já contava
vinte e sete e quando teve a primeira conquista amorosa. Aos vinte e nove não
via caminho algum. Voltou a cair na estrada.
Armou
negócio em alguma vila africana. Um bar temático que seis meses mais tarde
estampou manchetes de jornal de todo o globo, como o primeiro de uma série de
atentados que culminariam com um golpe militar transmitido ao vivo por
celulares no mundo inteiro.
A estrada
fez-se novamente necessária. Os cinco anos mais felizes de sua vida perderam-se
nas ondas, como lágrimas na chuva. Havia conhecido uma garota e, com ela, teve
um filho. A criança afogou-se aos três anos de idade, pondo fim ao primeiro
ciclo de felicidade na vida de nosso protagonista. Sua vida passou a oscilar em
vibrações como que as de músicas setentistas.
Alcança os
quarenta. Recebe a notícia da morte da mãe. Liga para casa e descobre que o pai
também já está morto. Não há mais para onde voltar.
Os próximos
dez anos são dedicados a viagens pelo globo. Amantes, tesouros, mistérios,
mestres, poder. Tudo que lhe é permitido, ele passa a procurar. Algumas vezes,
até se engana, pensando ter chego ao fim de tudo.
A roda gira,
metade de sua vida abandona o seu corpo. A notícia de um filho bastardo, uma
reação insensível de sua parte.* Uma nova busca por sentido começa. Os olhos se
apequenam, a visão turva. A escuridão consome.
Os setenta
anos não são mais que sombras. Uma nova etapa de viagens começa. Conhece o
mundo, tem a rara oportunidade de ofender as pessoas nas mais diferentes
línguas.
Chegam os
oitenta e o cheiro sono pesado da morte começa a escorrer para forte de seu
corpo.
Não houve
visitas. Apodreceu no hospital.
Passou a
vida entre mundos que não lhe queriam e padeceu justamente daquele que só os
mundos mais povoados podem apresentar: solidão.
E morreu.
* - Vim apenas para lhe dizer que sou uma boa
pessoa. Sou cristão, ajudo minha comunidade, tenho filhos e os amo.
- Se o mundo
é tão bom por que veio me perturbar?
- Vim te
perdoar.
- Isso é
sério? Espero que não.
Camponésio
Campelo Suarcida levanta-se de sua cadeira, enquanto aperta a fivela de seu
cinto. Ele pára a um palmo de distância do rosto de Valério, seu filho, e deixa
que uma fumaça fria saia de seu nariz.
- Eu...
- Você o
quê? Quer que eu me sinta culpado de sua vidinha de merda? Ou quer que eu fique
horrorizado por não ter compactuado pra essa tua mente quadrada e moralista de
católico de bairro nobre?
- Você não
tem o direito de falar essas coisas comigo.
- Eu não sou
seu pai. Nunca fui. Você tem meu material genético, apenas. E eu não tenho
nada. Vá em frente, me processe. Mas, por favor, me deixe em paz.
Posted at 01:12 am by Anti-Monitor
Permalink
May 10, 2008
Eu sou uma espécie de psicodélico preto & branco. Corro apressado pro fim, cheio de esperanças falsas. Como todo mundo, alias. E ainda estou desaprendendo a escrever. As vezes, vejo em mim a múmia que serei aos setenta anos. Medroso, sei que sou, mas a coragem é algo que exige demais. Tenho preguiça da vida de elite da academia. Divirto-me, vivo na vida simples e mágica do campo e é de onde extraio esse momento de minha vida. Mas iniciei-me nele, o mel é amargo, a magia e o tempo já cobram o seu preço. Essa é a razão dessas linhas. Perco-me, desordenado na sorte que meus pés trazem. Isto se chama mudança. É mudança o gotejar destas palavras. É tudo o que tenho, me agarro com todas as forças e abro caminho para a história que é o que interessa. Meu amigo lamenta sobre um livro perdido. Alguém pode ter levado, ou perdeu-se na recente mudança. Em algum lugar, uma chorosa moça lamenta a própria sorte. Todos a querem, poucos a amam. E ainda há as piranhinhas, como essas que existem em todo lugar. Gostam de dar e utilizam a buceta como gatilho social. --- Palavras são segredos bem guardados. Cada linha ecoa de um sentimento, tudo funcionando perfeitamente como se projetado além dos próprios corpos, perdido. Cada vez mais perdido. Estas linhas são sobre mim. Sobre minha maneira de me encontrar. A morte que, finalmente, me percebo desejando. É o fim, acabei-me em mim mesmo. --- Olhando para minha infância, percebo que todos fiavam-se na esperança de um mundo melhor. Se foi. --- Tenho me perdido por aqui nos últimos quatro, cinco anos. No mundo das palavras. Este tem sido o meu lar. Fugindo do que os outros premiam como realidade, eu me tornei mais do que um merda talentoso. Fui um Deus. Distribui pragas e milagres. Mas me esqueci de alimentar a carne. As únicas mulheres com quem me envolvi, foram elas que me buscaram. Nunca o contrário. Todas as outras, foram no plano das idéias. E quando se interessavam por mim, logo armava um labirinto para fugir disso. Talvez, eu seja misógino. É uma possibilidade. Mas vou mudar isso. Tenho muito o que fazer. Sou um mestre das fugas. Já consegui sair de enrascadas maiores. É hora de sair de outra.
Diego Aguiar Vieira
Posted at 04:28 pm by Anti-Monitor
Permalink
Mar 14, 2008
"Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, Não compreende quem fala delas Com o modo de falar que reparar para elas ensina." Alberto Caeiro Na primeira hora, desfiz-me de tudo o que havia em meus bolsos. Todo o meu dinheiro, todos os meus documentos, todo o meu passado foi arremessado do alto daquela pedra, perdendo-se para sempre na imensidão esverdeada. Mantive apenas o relógio. Mas nunca mais lhe dei corda. Então, rumei seis quilômetros pela costa deserta até encontrar um local desolado, onde eu me sentisse bem o bastante para viver por tanto tempo quanto fosse necessário, para que eu me esquecesse do tempo em que eu me encontrava ali. O tempo necessário para que eu me esquecesse das palavras e dos sons que nomeavam esse tempo. O tempo necessário para que eu me esquecesse dos sentimentos afogados que são a desculpa ideal para se dar nomes e sons para o tempo. E para que me esquecesse de mim mesmo. Eu não tinha nenhum livro comigo. Havia me cansado de, debruçado sobre a janela, ler sobre as coisas que bastava-me levantar a cabeça para ver. E essa é a mesma razão pela qual abandonei-me aqui sem papéis que me seduzissem ao relato. Os dias e as noites eram tão simples, que não havia a necessidade de registrá-los. Não fazia mais sentido esconder-me em casulos de irrealidade, agora que eu sentia a areia sob os meus pés. Também não havia ninguém que soubesse onde eu me encontrava. Então? Adoeci e febrilmente alucinei na areia molhada. E curei-me sozinho. Pesquei, dancei e cantei músicas fora de moda. Um dia, enquanto pulava contra as ondas e divertia-me sob o céu, descobri a razão pela qual, quando são levadas para longe das praias, as conchas guardam o simples simples som das águas do mar em seu interior. E também guardei esse som dentro de mim. Nunca me entristeci por mais tempo que uma brisa. Aproveitei as tempestades para celebrar o sorriso que não mais poderia ser roubado. Certa vez, assustei-me com um toque suave em minhas costas. Uma pipa perdida, vindo voando sabe-se lá de onde, arrastando-se interminavelmente pela areia, deixando um pequeno traço, que mal se formava, era apagado pelas águas; e por um indescritível, maravilhoso e inesquecível tempo, agarrei-a e diverti-me como criança. Depois, certo de ter feito uma magnífica descoberta sobre a vida, deixei-a ir embora, simplesmente soltando a linha, sem saber se outro poderia pegá-la mais a frente. Mais tarde, ainda como criança, ri de mim mesmo. Minhas únicas companhias eram as águas e o céu, mas de vez em quando, algum pescador ou casal em busca de tranqüilidade, surpreendiam-me, e entendendo isso, afastava-me e os deixava a sós pelo tempo que precisassem. Também havia o escultor, que eu esperava pacientemente toda manhã. Por toda a praia, havia um sem número de ilustrações feitas em profundidade nas pedras. Cobras, lagartos, caranguejos e esqueletos de baleia dividiam espaços com pegadas eternas e espadas. Sobre uma das espadas, havia uma série de símbolos, que só pude associar as escrituras celtas, além da inscrição: 1952 2027. Nunca soube o que significavam. A data do nascimento e a que o escultor tencionava como de sua morte? Aviso cadavérico, grito de alerta para que deixássemos de mesquinharia e corrêssemos atrás do prejuízo, antes que o mundo fosse pro buraco? Uma grande brincadeira? De qualquer forma, eu esperava obter as respostas do próprio escultor, uma vez que algumas de suas obras estavam pela metade. Pegadas por fazer, assim como cobras que ainda não passavam de riscos. Mas o escultor nunca veio. Agora, aquecido no fogo de meu coração e o que estala na minha frente, pergunto-me qual a diferença entre um e outro. Vou além e me questiono se seriam diferentes estas chamas das que brotaram por acidente, surpreendendo e matando de susto os primeiros homens a se aquecerem, comerem, rirem e contarem histórias ao redor da fogueira. Pergunto-me se há alguma diferença entre mim e os homens tristes, tomando café e se maldizendo, enquanto vão para suas camas. E me deixo adormecer, antes de ser contagiado pela resposta vaga, que no final das contas, não teria nenhum valor.
Posted at 08:48 am by Anti-Monitor
Permalink
Nov 23, 2007
O conto do olho que saiu pelo nariz
O conto do olho que saiu pelo nariz
Diego Aguiar Vieira
Buscou no
fim da história, as lembranças que havia juntado naqueles tempos de guerra. A
mala cheia, carregava fotografias, cartas, beijos e perfumes. E alguma dor,
também.
Abraçou o
próprio corpo e agradeceu pela vida, o vento contra o corpo, os lábios roxos de
frio.
Agora olhe
pra cá. Veja esse lindo olho atrás da vitrine. Ele é especial. Tem sua origem
em um mundo desconhecido. Além dos desejos, na plena satisfação de Ser. Um
pouco de amor fê-lo assim.
Aquela paz
ali, no entanto, não é para você. Sinto muito. Esse desespero é verdadeiro.
Talvez, seja só o que há.
Eu deveria
apagar essas palavras pessimistas. Mas não o farei. Permanecerão aqui, como o
tempo que se esvai e perde o significado.
Perdi a
paixão por personagens, as outras pessoas estão indo embora. Escorrendo por
entre meus dedos. Isso é assustador. É novo.
Eu posso
agüentar. Eu aceito esse desafio. Mais do que isso, eu o quero.
Posted at 08:15 pm by Anti-Monitor
Permalink
Nov 10, 2007
As duas irmãs
não se falam há anos. Gêmeas, completamente diferentes, uma desatenta mãe de
família, a outra uma lésbica entristecida e entristecedora.
Os olhos
daquela ali vão para o norte, a da outra, insensivelmente para o sul, como
todos os demais. A vida carente de poesia, semeando algo grandioso, perdido,
mas eternamente agradecido.
Algumas
estrelas para você, outras poucas para mim. É melhor assim. Pelo menos, é o que
eu gosto de acreditar.
Há dias em
que não há nada, só essa necessidade de gritar para todos o que se passa, dar
passagem, entrar de volta na corrente, por nada, talvez apenas um prazer
casual. Como se isso bastasse. Não basta.
Invejo os
que se iludem com um pouco de prazer. Como gostaria ser um desses na multidão,
que fingem não sentir dor.
No entanto,
cá estou eu, um pouco diferente, um pouco você. Um pouco confuso. E a certeza
de que você pode nem mesmo me conhecer. E isso me mata.
Muita vez,
mais me mata do que me faz viver.
Quero
brincar. Quero fingir que não sinto nada por você. Mas então, você me surge com
esse sorriso inédito, essas palavras inesperadas. E me mata mais um pouco.
Mais do que
essa distância, essa incerteza. Mais do que essa vida, só essa incerteza.
E como, e
isso é algo que eu tenho que admitir, eu adoro tudo isso. Adoro. E não troco
por nada.
Bem...
Talvez por você.
Posted at 06:37 pm by Anti-Monitor
Permalink
Oct 6, 2007
Então, eis
que percebo com tristeza que nunca lhes indiquei Esdras do Nascimento.
O homem é
uma coisa! Talvez, um dos menos conhecidos de nossa literatura, hoje. Talvez,
até por seus textos serem datados. Escritor que fez a cabeça da classe média
nos anos setenta, talvez seja um pouco condenado, por ter se mantido neutro nos
anos de ferro. Obviamente, seus personagens carregavam a dose necessária de
insatisfação, para que também não figurassem como meros "produtos do
sistema", como diziam na época (e, como alguns poucos tolos, continuam a
se referir).
O livro tema
desta pequena crítica é, talvez, sua maior obra. O livro nasce de temas
parecidos com os anteriores, com suas analises da classe média carioca,
destrinchando-a em ritmo de novela das oito, com dramas e romances sufocantes.
Em Variante Gotemburgo,
no entanto, Esdras inova ao investir numa narrativa baseada nas jogadas de
xadrez que nomeia o livro.
A forma como
as personagens são apresentadas provavelmente é o que há de mais
estilisticamente saboroso na obra. Cada personagem, é uma peça, cada peça, um
capítulo. Peças brancas são homens e negras, as mulheres. Um movimento para
frente, avança rumo ao futuro do personagem, para o lado, entrega-o a um
momento de reflexão, e quando vai para trás, leva-nos ao seu passado. Por fim,
cada casa representa duas páginas de texto.
Os
personagens prestam depoimento a outro personagem, cuja peça, tenho de admitir,
não sei qual é. Os capítulos narrados por esse entrevistador nos informam de
suas intenções em produzir um romance (este que está em nossas mãos), a
respeito da construção de um romance. Desde a organização dos fatos, até suas
intenções para com o leitor. Doce metalinguagem.
O livro foi
inicialmente apresentado como tese de doutorado em letras. Sobre isso,
Esdras diz em entrevista à Rodrigo de Souza Leão: “Foi um escândalo. Para mim,
parecia natural um compositor apresentar uma sinfonia como tese de doutoramento
em música, um artista plástico apresentar uma tela, um diretor de cinema, um
filme. Cada um na sua área. Eu achava que isso seria o óbvio. Mas a academia
pensava, e continua pensando, de maneira diferente.”
Adepto da
filosofia de Graciliano Ramos de que palavras são feitas para dizer e não
enfeitar, Esdras é um escritor de estilo seco, quase sem paixão, eu ouso dizer.
Ainda assim,
há essa insatisfação, essa vontade de viver e ir além, que deveria contaminar a
todos nós, mas, infelizmente, tem se tornado cada vez mais absurda no mundo de
clichês em que vivemos.
Posted at 09:28 pm by Anti-Monitor
Permalink
Aug 19, 2007
Diego Aguiar Vieira
Tô na busca,
agora. Dê licença, abra caminho, xispa daí!
Esses
olhinhos pequenos, essa dor de quem ama. Podiam ser olhos esbugalhados, também.
E felicidade. E ódio. Tudo isso, misturado, batido no liquidificador, pronto
pra servir.
Ou então,
essa coisa que não cessa. Essa coisa doída, esse cansaço de não se fazer nada,
de não ser nada.
A menina.
She’s leaving home, por natureza. Ou é isso, ou vira escrava de tudo, cobra
venenosa, faiscando na escuridão, pronta pra explodir. Um pacote pronto pra se
abrir, milagres em ebulição, ouro na lama.
A garganta
fechada, pronta pra gritar, contida, inda mais dolorida que o tempo dos tempos
pode sacudir. Qualquer coisa assim. Na falta de sentido, os pensamentos só fazem
doer, remoer, cogitar as possibilidades.
Tudo o que
fará, tudo o que poderia ter feito. Da vez em que o carro quase lhe pegou. O
pânico, mais tarde, na cama, solitária ao lado de um homem que não é nada,
triste. Um “e se...”, na cabeça. E se tivesse sido atropelada?
E o
desespero diante da idéia de estar sorrindo, de ser feliz com a idéia de estar
morta, longe daquilo tudo, livre de todas essas decisões precipitadas, essa dor
que não serve de nada.
Respira
fundo, volta a realidade que não gosta. Mas que existe. Amaldiçoadamente, ela
existe.
Aí, a busca
desesperada, a necessidade de encontrar um poço onde se afogar, beber tanto de
uma taça, até que a própria taça acabe sendo engolida, também. Uma dor sem
tamanho. Alcoolismo de vida. Viciada em adrenalina.
Mas nem é
uma boa vida, também. Não é melhor do que a vida tola que tem.
Diabo, nem
mesmo é alguma coisa de verdade. É só a raiva de sempre.
Cenário:
boteco num morro qualquer. Chacina. Tombaram uns oito. Tombaram. Nada de morte
chorosa. Ninguém quer morrer, mas ninguém esperto quer, depois de morto, ficar
com fuça de santo, espevitado, tema de marchinhas da liberdade e da paz.
Morreu, morreu. Não importa o que tinha pela frente, pelamor. Só morreu.
A moça
bonita, dezesseis anos, ta lá, também. Três tiros. Um no pescoço. Dois na
barriga. E com um sorriso estatelado. Escancarado. Do tipo que impacienta.
A família
lamente. Boa família, repetem. Riquinha. Saia de casa como quem não quer nada.
Ia pra onde se sentia gente. Pouco importa se estava certa ou errada. O sorriso
assusta.
Um policial,
o primeiro a chegar, Admilson não-sei-das-quantas, não consegue tirar os olhos.
E nem é dos peitos durinhos e bonitos. É o sorriso. O sorriso que nunca vai
sair.
Tá lá, sem
dor. Enterrada em caixão fechada. O sorriso, ricto. Vai até a caveira. Até o
outro lado.
E sem ser
santa, está bem?
Posted at 08:14 am by Anti-Monitor
Permalink
Diacho!, e isso lá é hora de sentir mal? Inda mais que é por nada demais, só por mim mesmo, cá parado, medroso de todo. Retadamente paralisado.
E donde que tá a porra da corda pr'eu me segurar? Quedê? Dê-me forças, qualquer um! Aí, tem alguém ouvindo? Não?
Já imaginava...
Posted at 07:11 am by Anti-Monitor
Permalink
Jul 23, 2007
2085 - O Mundo das Maravilhas
Buenas Salenas!
A seguir, algumas especificações gerais sobre o
projeto 2085 – O Mundo das Maravilhas (título provisório): Por ser um trabalho
que ambiciona, tão somente, ser publicado na internet, não há nenhum retorno
financeiro, ao menos, no momento.
Quanto ao formato das páginas, pensei que poderíamos
utilizar o formato da própria tela do computador, com quadros retangulares, por
volta de duas linhas e cerca de seis a oito painéis por página, no máximo. Em
outras palavras, tentaremos fazer o possível para que o leitor não tenha de
usar a barra de rolagem – se faremos quadrinhos para a internet, então vamos
fazer a coisa do modo mais simples possível, adaptado ao formato. Com o tempo,
creio que a idéia pode ser amadurecida.
Como o próprio título bem diz, essa história se
passa no futuro.
É uma era de paz, embora nem tudo seja o que pareça.
Não há fome, nem infelicidade, mas parece que também não há mais um pensamento
puro. Embora as pessoas não sejam meros instrumentos do poder, como em 1984 e
Admirável Mundo Novo (influências claras nesse trabalho), aqui também parece
haver um abafamento dos sentimentos. Tudo é mais brutal, mas venal, e assim
mesmo, mais aceito.
Tentaremos, com o decorrer dos capítulos,
descortinar o que esse mundo tem a esconder. Não haverá personagens principais,
embora um ou outro nos seja recorrente.
A principio, acho justo não contar com um desenhista
regular, e acredito que isso apenas irá engrandecer o trabalho. Com o tempo,
espero não precisar haver também, um único escritor, podendo expandir esse
mundo, submetendo-o as visões criativas de outras pessoas (assim, a necessidade
de cores e outras características relacionadas as feições deste ou daquele
personagem, por vezes, poderão ser descartadas – deveras, com efeitos
positivos). Novamente, isso poderá ser interessante, por poder juntar
escritores e desenhistas que compartilham afinidades, além de
escritores-desenhistas, que quiserem dar uma visão mais pessoal.
Todas as idéias serão bem vindas!
Alias, seja bem vindo também, sinta-se em casa.
Falemos sobre o futuro, aqui, na esperança de que
ele seja bem melhor, mesmo que não o alcancemos.
Posted at 10:16 pm by Anti-Monitor
Permalink
2085 texto 1
Diego Aguiar Vieira
A Criação do Mundo das
Maravilhas
por Santana Conselheiro
“(...)as
portas foram arrancadas de seus batentes (...) e apenas as dobradiças foram
poupadas para que servissem como recordação silenciosa de uma história triste e
assustadora.”
A Fábula da
Hora final,
Dan Propper
A observação
da história, dizia Maquiavel, nos permite prever os acontecimentos que virão a
seguir.
Você
provavelmente nunca ouviu falar de Maquiavel, e apesar de Dan Dropper, cujo
poema utilizei como entrada para este artigo, ser ainda mais recente (uns
quinhentos anos depois de Maquiavel, e cerca de cento e trinta anos atrás,
aproximadamente), tenho certeza de que você também nunca ouviu falar dele.
Isso porque
a arte e a literatura têm sido sistematicamente apagadas do nosso way of life. Há uma série de estudiosos que
dizem que já não há mais razão para sonharmos com o futuro, se já vivemos no
mesmo. Esse é um bom argumento, muito promovido em centros educacionais e na
tv, graças a ele, os cinemas estão fechados, as bibliotecas estão vazias e os
museus não passam de depósitos.
Peço-lhes
que embarquem ao meu lado, por algumas linhas, numa segura viagem no tempo, que
certamente não lhes causará mal algum, além de uma certa retomada de suas
consciências.
-*-
Por volta de
2009, um pequeno grupo de artistas, intelectuais e lideranças mundiais,
reuniram-se sob os tetos dourados da Primeira Junta da Ciência em Los Angeles,
organização fundada nos idos dos anos sessenta, com a liderança do escritor de
ficção cientifica e mago, Howard “Búfalo” Hubbard.
Em todas as
suas empreitadas anteriores, Hubbard havia falhado miseravelmente, na maioria
das vezes deixando essas ocupações com o manto da fraude e do plágio. Mas aqui,
conseguindo reunir as maiores cabeças da arte underground sob suas
especulações, Hubbard logrou êxito, atraindo multidões dispostas a ouvir sobre
como a ciência salvaria o mundo, sobre como deveríamos nos preparar para
receber os que viriam, sobre como éramos os Precursores.
Com o tempo,
ficou claro que Hubbard não passava de um charlatão, de que toda a sua campanha
se tratava de apenas mais uma caminhada para um novo Dia da Decepção, mas ainda
podemos ver adeptos da PJC por aí. E que o Búfalo Dourado lhes guarde a fé!
A
contribuição de Hubbard para a potencialização deste mundo em que vivemos,
transcorreu nesses três anos em que esses artistas, intelectuais, lideranças
mundiais passaram juntos, sob o mesmo teto. Todos eles tinham uma coisa em
comum, eram ricos. Os mais ricos a caminharem sobre a Terra.
E, é claro,
a salvação de Hubbard também estava ligada ao trabalho, à junta das coisas
materiais, pois, como ele mesmo pregava, isso era a prova de que você estava
apto a gerar deuses.
Não sem
muita dificuldade, você poderia encontrar na Grande Rede, fotos do dia em que
essas pessoas saíram da casa de Hubbard. Mas a Grande Rede hoje em dia guarda
mais poeira do que a parte de cima do meu aparelho de tv, então, eu duvido que
alguém vá dar uma olhada...
Com
dezesseis guerras acontecendo só na Europa, e milhares de pessoas saindo as
ruas, fantasiadas de Homens-Sanduíche, com frases incompreensíveis em sua
maioria (Buenas Salenas!, O Telefone vai tocar! Tudo vai ficar bem!),
contando também com algumas que necessitavam de bem menos explicações, e por
isso mesmo, eram provocadoras de pânico, como O Fim está próximo! O mundo ainda teve de lidar com o retorno de
toda essa corja da PJC, afirmando em jornais e revistas que o fim do mundo
estava próximo, e que o mesmo não poderia cair de outra forma, que não fosse
pelas nossas mãos.
Meu tio-avô,
o famoso escritor, que você provavelmente não conhece, Pedro Conselheiro se
matou nesse dia.
-*-
O fim do
mundo tinha data marcada agora, e era preciso fazer com que tudo corresse bem
até lá.
Não houve
como nenhum governo impedir o que acontecia. A liberdade de imprensa (essa
coisinha que já está deixando de existir), estava em seu auge, e como sempre,
cada capa ou manchete anunciando o fim do mundo, era certeza de vendas altas.
As coisas
começaram de fato no dia vinte e dois de dezembro de dois mil e doze, quando os
catorze homens mais ricos do mundo, subiram no alto da Bolsa de Nova Iorque e
jogaram para a multidão que tomava as ruas, cerca de onze bilhões de dólares.
Foi um ato simbólico, claro, mas também impulsionou um desequilíbrio profundo
na economia mundial.
No mundo
inteiro, cenas parecidas começaram a ocorrer. O que, no inicio, começou como
uma guerra, com as pessoas matando umas as outras, em razão de se ter mais
dinheiro, logo se organizou. O caos deu lugar à anarquia. E com essa, logo se
percebeu que não havia mais pobreza, e com isso, também não havia mais razão de
ser ter dinheiro. Poucas cédulas foram salvas da grande fogueira, e a maioria
hoje se guarda aos cuidados de colecionadores e museus.
-*-
Daí em diante, todos sabem o que ocorreu. Não nos
voltamos completamente para a natureza, mas a duras penas, entendemos que um
equilíbrio era necessário. A ciência foi finalmente encorajada, relatos dizem
que Deus foi encontrado morto num beco, abraçado a uma prostituta de cabelos
vermelhos.
Prosperamos
mais do que nunca. Ainda há algum foco de fé, aqui e ali, mas esses são
encorajados, e até mesmo parecem estar voltando a ter alguma influência em
áreas menos populosas. Nada com que se preocupar, dizem os especialistas.
“Jamais
estivemos tão bem”, dizem os noticiários. A ausência de líderes, finalmente não
é mais sentida.
Curiosamente, eu sei que ninguém lerá essa revista, assim como sei que
meus questionamentos serão ignorados, e que "todos
esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva".
Mas
está tudo bem, enquanto tivermos o que comer, beber e amar. Tudo estará bem.
Não é?
Posted at 10:13 pm by Anti-Monitor
Permalink
|
 |
 |
 |
 |
 |
 |
|
|