Então, eis
que percebo com tristeza que nunca lhes indiquei Esdras do Nascimento.
O homem é
uma coisa! Talvez, um dos menos conhecidos de nossa literatura, hoje. Talvez,
até por seus textos serem datados. Escritor que fez a cabeça da classe média
nos anos setenta, talvez seja um pouco condenado, por ter se mantido neutro nos
anos de ferro. Obviamente, seus personagens carregavam a dose necessária de
insatisfação, para que também não figurassem como meros "produtos do
sistema", como diziam na época (e, como alguns poucos tolos, continuam a
se referir).
O livro tema
desta pequena crítica é, talvez, sua maior obra. O livro nasce de temas
parecidos com os anteriores, com suas analises da classe média carioca,
destrinchando-a em ritmo de novela das oito, com dramas e romances sufocantes.
Em Variante Gotemburgo,
no entanto, Esdras inova ao investir numa narrativa baseada nas jogadas de
xadrez que nomeia o livro.
A forma como
as personagens são apresentadas provavelmente é o que há de mais
estilisticamente saboroso na obra. Cada personagem, é uma peça, cada peça, um
capítulo. Peças brancas são homens e negras, as mulheres. Um movimento para
frente, avança rumo ao futuro do personagem, para o lado, entrega-o a um
momento de reflexão, e quando vai para trás, leva-nos ao seu passado. Por fim,
cada casa representa duas páginas de texto.
Os
personagens prestam depoimento a outro personagem, cuja peça, tenho de admitir,
não sei qual é. Os capítulos narrados por esse entrevistador nos informam de
suas intenções em produzir um romance (este que está em nossas mãos), a
respeito da construção de um romance. Desde a organização dos fatos, até suas
intenções para com o leitor. Doce metalinguagem.
O livro foi
inicialmente apresentado como tese de doutorado em letras. Sobre isso,
Esdras diz em entrevista à Rodrigo de Souza Leão: “Foi um escândalo. Para mim,
parecia natural um compositor apresentar uma sinfonia como tese de doutoramento
em música, um artista plástico apresentar uma tela, um diretor de cinema, um
filme. Cada um na sua área. Eu achava que isso seria o óbvio. Mas a academia
pensava, e continua pensando, de maneira diferente.”
Adepto da
filosofia de Graciliano Ramos de que palavras são feitas para dizer e não
enfeitar, Esdras é um escritor de estilo seco, quase sem paixão, eu ouso dizer.
Ainda assim,
há essa insatisfação, essa vontade de viver e ir além, que deveria contaminar a
todos nós, mas, infelizmente, tem se tornado cada vez mais absurda no mundo de
clichês em que vivemos.