<< March 2008 >>
Sun Mon Tue Wed Thu Fri Sat
 01
02 03 04 05 06 07 08
09 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30 31


If you want to be updated on this weblog Enter your email here:


rss feed

Mar 14, 2008
Mar do Norte

"Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina."

Alberto Caeiro

 

 

  Na primeira hora, desfiz-me de tudo o que havia em meus bolsos.

  Todo o meu dinheiro, todos os meus documentos, todo o meu passado foi arremessado do alto daquela pedra, perdendo-se para sempre na imensidão esverdeada.

  Mantive apenas o relógio. Mas nunca mais lhe dei corda.

  Então, rumei seis quilômetros pela costa deserta até encontrar um local desolado, onde eu me sentisse bem o bastante para viver por tanto tempo quanto fosse necessário, para que eu me esquecesse do tempo em que eu me encontrava ali. O tempo necessário para que eu me esquecesse das palavras e dos sons que nomeavam esse tempo. O tempo necessário para que eu me esquecesse dos sentimentos afogados que são a desculpa ideal para se dar nomes e sons para o tempo.

  E para que me esquecesse de mim mesmo.

 

  Eu não tinha nenhum livro comigo.

  Havia me cansado de, debruçado sobre a janela, ler sobre as coisas que bastava-me levantar a cabeça para ver.

  E essa é a mesma razão pela qual abandonei-me aqui sem papéis que me seduzissem ao relato.

  Os dias e as noites eram tão simples, que não havia a necessidade de registrá-los.

  Não fazia mais sentido esconder-me em casulos de irrealidade, agora que eu sentia a areia sob os meus pés.

  Também não havia ninguém que soubesse onde eu me encontrava.

 

  Então? Adoeci e febrilmente alucinei na areia molhada.

  E curei-me sozinho.

  Pesquei, dancei e cantei músicas fora de moda.

  Um dia, enquanto pulava contra as ondas e divertia-me sob o céu, descobri a razão pela qual, quando são levadas para longe das praias, as conchas guardam o simples simples som das águas do mar em seu interior.

  E também guardei esse som dentro de mim.

 

  Nunca me entristeci por mais tempo que uma brisa.

  Aproveitei as tempestades para celebrar o sorriso que não mais poderia ser roubado.

 

  Certa vez, assustei-me com um toque suave em minhas costas. Uma pipa perdida, vindo voando sabe-se lá de onde, arrastando-se interminavelmente pela areia, deixando um pequeno traço, que mal se formava, era apagado pelas águas; e por um indescritível, maravilhoso e inesquecível tempo, agarrei-a e diverti-me como criança.

  Depois, certo de ter feito uma magnífica descoberta sobre a vida, deixei-a ir embora, simplesmente soltando a linha, sem saber se outro poderia pegá-la mais a frente.

  Mais tarde, ainda como criança, ri de mim mesmo.

 

  Minhas únicas companhias eram as águas e o céu, mas de vez em quando, algum pescador ou casal em busca de tranqüilidade, surpreendiam-me, e entendendo isso, afastava-me e os deixava a sós pelo tempo que precisassem.

  Também havia o escultor, que eu esperava pacientemente toda manhã. Por toda a praia, havia um sem número de ilustrações feitas em profundidade nas pedras. Cobras, lagartos, caranguejos e esqueletos de baleia dividiam espaços com pegadas eternas e espadas.

  Sobre uma das espadas, havia uma série de símbolos, que só pude associar as escrituras celtas, além da inscrição: 1952 2027. Nunca soube o que significavam. A data do nascimento e a que o escultor tencionava como de sua morte? Aviso cadavérico, grito de alerta para que deixássemos de mesquinharia e corrêssemos atrás do prejuízo, antes que o mundo fosse pro buraco? Uma grande brincadeira?

  De qualquer forma, eu esperava obter as respostas do próprio escultor, uma vez que algumas de suas obras estavam pela metade. Pegadas por fazer, assim como cobras que ainda não passavam de riscos. Mas o escultor nunca veio.

 

  Agora, aquecido no fogo de meu coração e o que estala na minha frente, pergunto-me qual a diferença entre um e outro. Vou além e me questiono se seriam diferentes estas chamas das que brotaram por acidente, surpreendendo e matando de susto os primeiros homens a se aquecerem, comerem, rirem e contarem histórias ao redor da fogueira.

  Pergunto-me se há alguma diferença entre mim e os homens tristes, tomando café e se maldizendo, enquanto vão para suas camas.

  E me deixo adormecer, antes de ser contagiado pela resposta vaga, que no final das contas, não teria nenhum valor.


Posted at 08:48 am by Anti-Monitor

 

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments




Previous Entry Home Next Entry