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May 18, 2008
Este era o problema do senhor Camponésio Campelo Suarcidago Aguiar

Diego Aguiar Vieira


  Este era o problema do senhor Camponésio Campelo Suarcida: odiava imediatamente todos aqueles que conhecia.

  Aos vinte e três foi embora de seu lar e jurou nunca voltar. Os três anos seguintes foram perdidos num estupor momentâneo da liberdade. Infelizmente, boa parte dessa liberdade dissolveu-se junto com a primeira decepção amorosa (o equivalente a uma batida da polícia no apartamento de um traficante inexperiente).

  Já contava vinte e sete e quando teve a primeira conquista amorosa. Aos vinte e nove não via caminho algum. Voltou a cair na estrada.

  Armou negócio em alguma vila africana. Um bar temático que seis meses mais tarde estampou manchetes de jornal de todo o globo, como o primeiro de uma série de atentados que culminariam com um golpe militar transmitido ao vivo por celulares no mundo inteiro.

  A estrada fez-se novamente necessária. Os cinco anos mais felizes de sua vida perderam-se nas ondas, como lágrimas na chuva. Havia conhecido uma garota e, com ela, teve um filho. A criança afogou-se aos três anos de idade, pondo fim ao primeiro ciclo de felicidade na vida de nosso protagonista. Sua vida passou a oscilar em vibrações como que as de músicas setentistas.

  Alcança os quarenta. Recebe a notícia da morte da mãe. Liga para casa e descobre que o pai também já está morto. Não há mais para onde voltar.

  Os próximos dez anos são dedicados a viagens pelo globo. Amantes, tesouros, mistérios, mestres, poder. Tudo que lhe é permitido, ele passa a procurar. Algumas vezes, até se engana, pensando ter chego ao fim de tudo.

  A roda gira, metade de sua vida abandona o seu corpo. A notícia de um filho bastardo, uma reação insensível de sua parte.* Uma nova busca por sentido começa. Os olhos se apequenam, a visão turva. A escuridão consome.

  Os setenta anos não são mais que sombras. Uma nova etapa de viagens começa. Conhece o mundo, tem a rara oportunidade de ofender as pessoas nas mais diferentes línguas.

  Chegam os oitenta e o cheiro sono pesado da morte começa a escorrer para forte de seu corpo.

  Não houve visitas. Apodreceu no hospital.

  Passou a vida entre mundos que não lhe queriam e padeceu justamente daquele que só os mundos mais povoados podem apresentar: solidão.

  E morreu.


* - Vim apenas para lhe dizer que sou uma boa pessoa. Sou cristão, ajudo minha comunidade, tenho filhos e os amo.

  - Se o mundo é tão bom por que veio me perturbar?

  - Vim te perdoar.

  - Isso é sério? Espero que não.

  Camponésio Campelo Suarcida levanta-se de sua cadeira, enquanto aperta a fivela de seu cinto. Ele pára a um palmo de distância do rosto de Valério, seu filho, e deixa que uma fumaça fria saia de seu nariz.

  - Eu...

  - Você o quê? Quer que eu me sinta culpado de sua vidinha de merda? Ou quer que eu fique horrorizado por não ter compactuado pra essa tua mente quadrada e moralista de católico de bairro nobre?

  - Você não tem o direito de falar essas coisas comigo.

  - Eu não sou seu pai. Nunca fui. Você tem meu material genético, apenas. E eu não tenho nada. Vá em frente, me processe. Mas, por favor, me deixe em paz.



Posted at 01:12 am by Anti-Monitor

Ho
March 8, 2009   07:59 PM PDT
 
Sabe que gostei, devia ter algo relacionando seus textos na barra da esquerda. Té.
naturline
June 19, 2008   03:03 AM PDT
 
Lindo blog, delícia de ver e de sentir.
Parabéns!
Gostei muito blog muito giro;)
 

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