Diego Aguiar Vieira
Este era o
problema do senhor Camponésio Campelo Suarcida: odiava imediatamente todos
aqueles que conhecia.
Aos vinte e
três foi embora de seu lar e jurou nunca voltar. Os três anos seguintes foram
perdidos num estupor momentâneo da liberdade. Infelizmente, boa parte dessa
liberdade dissolveu-se junto com a primeira decepção amorosa (o equivalente a
uma batida da polícia no apartamento de um traficante inexperiente).
Já contava
vinte e sete e quando teve a primeira conquista amorosa. Aos vinte e nove não
via caminho algum. Voltou a cair na estrada.
Armou
negócio em alguma vila africana. Um bar temático que seis meses mais tarde
estampou manchetes de jornal de todo o globo, como o primeiro de uma série de
atentados que culminariam com um golpe militar transmitido ao vivo por
celulares no mundo inteiro.
A estrada
fez-se novamente necessária. Os cinco anos mais felizes de sua vida perderam-se
nas ondas, como lágrimas na chuva. Havia conhecido uma garota e, com ela, teve
um filho. A criança afogou-se aos três anos de idade, pondo fim ao primeiro
ciclo de felicidade na vida de nosso protagonista. Sua vida passou a oscilar em
vibrações como que as de músicas setentistas.
Alcança os
quarenta. Recebe a notícia da morte da mãe. Liga para casa e descobre que o pai
também já está morto. Não há mais para onde voltar.
Os próximos
dez anos são dedicados a viagens pelo globo. Amantes, tesouros, mistérios,
mestres, poder. Tudo que lhe é permitido, ele passa a procurar. Algumas vezes,
até se engana, pensando ter chego ao fim de tudo.
A roda gira,
metade de sua vida abandona o seu corpo. A notícia de um filho bastardo, uma
reação insensível de sua parte.* Uma nova busca por sentido começa. Os olhos se
apequenam, a visão turva. A escuridão consome.
Os setenta
anos não são mais que sombras. Uma nova etapa de viagens começa. Conhece o
mundo, tem a rara oportunidade de ofender as pessoas nas mais diferentes
línguas.
Chegam os
oitenta e o cheiro sono pesado da morte começa a escorrer para forte de seu
corpo.
Não houve
visitas. Apodreceu no hospital.
Passou a
vida entre mundos que não lhe queriam e padeceu justamente daquele que só os
mundos mais povoados podem apresentar: solidão.
E morreu.
* - Vim apenas para lhe dizer que sou uma boa
pessoa. Sou cristão, ajudo minha comunidade, tenho filhos e os amo.
- Se o mundo
é tão bom por que veio me perturbar?
- Vim te
perdoar.
- Isso é
sério? Espero que não.
Camponésio
Campelo Suarcida levanta-se de sua cadeira, enquanto aperta a fivela de seu
cinto. Ele pára a um palmo de distância do rosto de Valério, seu filho, e deixa
que uma fumaça fria saia de seu nariz.
- Eu...
- Você o
quê? Quer que eu me sinta culpado de sua vidinha de merda? Ou quer que eu fique
horrorizado por não ter compactuado pra essa tua mente quadrada e moralista de
católico de bairro nobre?
- Você não
tem o direito de falar essas coisas comigo.
- Eu não sou
seu pai. Nunca fui. Você tem meu material genético, apenas. E eu não tenho
nada. Vá em frente, me processe. Mas, por favor, me deixe em paz.