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Jul 23, 2007
2085 texto 2
Diego Aguiar Vieira
Weltanschauung*
por Anhangaátoo Therion
Proponho um
cenário diferente. Desta vez, teremos paz, igualdade, justiça. As riquezas
deixaram de ser fatores importantes.
Tudo o que
importa é a convivência harmônica entre o homem e a natureza.
Deus brinda
aos seus filhos e os leva até o horizonte, a fonte de tudo o que há, o muro
intocado pelos titãs.
As barreiras
da pele, as diferenças que compõem cada um de nós, são abandonadas em prol da
compreensão mútua. Todos os problemas podem ser resolvidos. Os homens podem
enxergar todos os pontos que lhe impediram, até agora, de serem deuses.
E como
deuses, recuperam a humanidade. Pois percebem que os caminhos são feitos a
partir da ignorância (que não é uma palavra ruim, no final das contas).
Defendem que sejamos responsáveis por nossas ações e suas conseqüências.
Estamos onde
estamos, porque já fomos abençoados.
Há um
pensamento que está sempre comigo: devo viver como se compusesse uma grande
obra de arte. Cada delírio, cada fagulha de vontade deve ser empregada nesse
objetivo.
Busco
incansavelmente por um padrão que, deveras, se altera regularmente como o
relógio que bate dentro de meu peito.
Mesmo os
segredos mais aterradores devem ser encarados como a mais comum das revelações.
Há um balé que não nos diz respeito. Há uma dança cósmica da qual fazemos parte
e não notamos.
O único
ingrediente para se sobreviver e alcançar a compreensão, é viver faustosamente.
Há feridas
que não podem ser cicatrizadas, há obstáculos que não devem ser transpostos. No
entanto, eles estão sempre ali. À nossa espera.
O homem que
caminha hoje sobre esse mundo, não é diferente dos que estiveram aqui há cem
anos. Mas podemos ser diferentes dos que virão.
Podemos ser
os precursores de uma nova era, muito mais importante do que todas as
conquistas que, tolamente, achamos ter hoje em dia. O mundo poderá conhecer a verdadeira face de Deus.
Assim como
os acordes dissonantes que compõem a realidade. Cada nota, um desastre em potencial. Um milagre
prestes a explodir.
Este é você.
“Talvez, um dia eu veja você tremendo e tendo
convulsões. E você crescerá. E sua boca será grande e estreita o suficiente
para que o mundo passe por ela, escapando por essa janela, como um rio,
inundando tudo ao seu redor. E então nós começaremos a viver.”
Alejandro
Jodorowsky, 1971
* Weltanschauung:
palavra de origem alemã que significa literalmente visão de mundo, sendo adotada regularmente em diversas línguas
com este significado. Pode ser usada para descrever a maneira como uma pessoa
enxerga o mundo, a imagem que ela faz da vida, dos homens e do mundo que lhe é
imposta, isto é, uma ideologia. Suas origens etimológicas remetem ao século 18.
Posted at 10:13 pm by Anti-Monitor
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2085 Texto 3
Diego Aguiar Vieira
Dos diários de
Salomão Fernando
03 de janeiro de
2085
Eis uma história que vale a pena ser
contada.
Houve uma época, antes que as estrelas
brilhassem, antes das histórias serem escritas, quando a memória ainda dependia
da sobrevivência, quando a fúria dos deuses ainda era vista como provas de seu
amor, quando os homens conviviam harmoniosamente, ainda ligados por mundos além
dos nossos olhos. Quando as pessoas pálidas não fingiam viver em mundos que não
lhe pertenciam.
Uma época em que ouvir a grama crescer
conferia-lhe sabedoria além dos prédios e confusos sentimentos que nos atordoam
e iludem sob a luz do dia.
Nessa época, um homem se apaixonou pelos
céus.
Esse homem, de língua e maneiras próprias,
era tão corajoso quanto qualquer outro. Tão sábio e tão feliz quanto as moscas
e os leões. E reconhecia no azul do céu, a chama que sentia queimar em seu
poderoso coração de carne e sangue.
O homem subiu a mais alta das montanhas,
roubou as penas dos mais valentes e altivos pássaros, construiu as mais altas
escadas, mas nunca se aproximou o bastante dos céus. Uma noite, vagando por um
dos mundos sem domínio, pôde tocar a face azul e infinita que tanto desejava.
Acordou tremendo de dor e febre.
Com um objetivo em mente, ele partiu para
além das dobras do mundo, em busca do fruto original. Crescendo sob as lágrimas
de todas as dores, o fruto era o mais alto preço a ser cobrado pelo
conhecimento.
Quem o comesse, caminharia eternamente
entre os mundos, desafiaria qualquer lei criada por uma lógica que ainda não
existia, e poderia, até mesmo, se assim fosse sua vontade, esquecer toda a dor
e aflição, que, certamente, lhe haviam servido de sapatos em sua busca.
Tendo comido da fruta, o homem escapou a
todo aquele que tentasse narrar sua história. Seus objetivos, assim como seu
possível êxito, foram nublados pela embriaguez de seus atos. As lendas dizem
que por comer o fruto original, o mundo perfeito ruíra, que fora dividido e abandonado
à própria sorte, gerando filhos assassinos, que por sua vez, iriam ser
amaldiçoados, caminhando até o dia de hoje, sob o céu inclemente, que, um dia,
ousaram conquistar com asas de cera.
Mas eu sei a verdade. Foi passado a mim,
o último de meu povo, através de sonhos e desejos, amores e esperanças. Assim
como meu povo, o homem que buscava o amor do céu inclemente, embarcou na única
e última viagem que nos é reservada.
07 de janeiro de
2085
Hoje eu começo a minha busca. O caminho
de Lilith, Borges, Yahweh, Osterman, Holland, Beaves e muitos outros de muitos
mundos.
Todo o ritual foi minuciosamente
planejado, todos os elementos estão em harmonia. Tem início o ciclo que se repete desde
os princípios dos tempos, a jornada que se apresenta e se oferece a cada ser
cuja existência já tocou esse ou qualquer um dos planos.
Eu aceito a oferta!
As portas se abrirão a qualquer momento
(não faz muito tempo que ingeri a droga celestial – como ela é chamada pelos
daqui). Eu estou pronto.
Vou caminhar. Apenas caminhar...
Posted at 10:12 pm by Anti-Monitor
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Nov 20, 2006
O tesouro de Macaé de Cima
Diego Aguiar Vieira e
Tadeu Teixeira
“Se existe uma alta concentração de espécies de orquídeas numa determinada área da floresta, isto indica uma alta biodiversidade.” Isso nos foi dito por David e Izabel Miller, enquanto, um pouco apressados pela chuva, nos mostravam algumas espécies de orquídeas, que estavam, ali mesmo, em seu quintal.
Deve-se dizer que o “quintal” de David e Izabel é uma substancial área da Mata Atlântica, comprada pelos dois com o admirável propósito de preservarem a mesma. E admirável é um adjetivo que se encaixa perfeitamente a esses dois.
Viemos a conhecer o casal de uma forma um tanto quanto circunstancial. Invariavelmente, iríamos vê-los, embora, ao sairmos de casa, cada um tinha uma idéia bem diferente do que iríamos encontrar.
A idéia inicial era de fazermos uma matéria gonzo, caindo na estrada com o mínimo de informações nas mãos e o máximo de comida que pudéssemos levar nas costas. Faríamos uma visita rápida a Macaé de Cima, entrevistando alguns moradores, visitando alguns locais interessantes (entre eles, algumas criações de trutas, uma ou duas pousadas e a criação de rãs do cantor e ator Evandro mesquita). Feito isso, possivelmente iríamos acampar até o dia seguinte, quando partiríamos para Lumiar. Lá iríamos em busca de algumas histórias realmente divertidas e excentricidades que só poderíamos encontrar em terreno tão bem provido de tipos antípodas.
Acontece que ao descer do ônibus, em frente ao Hotel Garlipp, nenhum de nós se sentia como num filme de estrada. Já cansados e desanimados pela longa subida que teríamos de fazer, nossos pensamentos foram expressos de uma forma bem interessante, por Roberto, o dono da bonita loja de souvenires Pé na Roça: “Vocês vão subir até Macaé de Cima? Deus lhes abençoe!” E isto ele disse, fazendo o sinal da cruz em nossa direção.
Era isso, estávamos dentro de uma lojinha com um ambiente tipicamente montanhês. Todos ainda um tanto quanto perdidos. Sentíamos como se fossemos as estrelas da refilmagem de Um Lobisomem Americano em Londres.
Assim, um pouco desanimados, já cansados e sem muita perspectiva do que seria feito, saímos novamente sob a chuva que iria nos acompanhar por todo o dia.
Numa tentativa frustrada de conseguir carona, falamos com um dos proprietários do Truta & boa cia, ainda em Mury. Não conseguimos nenhuma ajuda para chegar à Macaé de Cima, mas fomos informados de que seríamos bem recebidos na criação de trutas que eles mantêm lá. Fizeram-nos até um mapa, indicando-nos o melhor modo de chegar ao criadouro.
Também fomos informados de que o clima de frio de Macaé de Cima era bom para a criação de trutas, fazendo com que alguns criadouros se instalassem por lá. O próprio Truta & boa cia, por exemplo, é responsável pelo abastecimento de diversos restaurantes da região.
Sem nenhuma carona à vista, refizemos todo o percurso que havíamos perdido, indo até o Truta e voltamos à estrada, onde, de uma vez por todas, iríamos começar nossa jornada.
Aqui é necessário fazer uma pausa, um momento para recuperar o fôlego e dar tempo de apresentar os membros do nosso grupo. Os dois repórteres responsáveis por este artigo, Diego Aguiar Vieira, excêntrico, ligeiramente excitado com a idéia de abandonar a civilização e desaparecer no meio da mata e Tadeu Teixeira, esquizofrênico, paranóico de carteirinha e nem um pouco medicado. Acompanhando-nos, Cristiano Botelho, dezesseis anos, cento e vinte quilos. Entende-se que tivemos que parar muitas vezes para recuperar o fôlego.
Outro fato curioso: nenhum de nós sabia nada sobre Macaé de Cima. E não cremos que seja porque todos nós vínhamos de outras cidades. Como ficaria provado mais tarde, a própria população de Friburgo, não parece estar muito ciente das belezas naturais que eles são capazes de guardar ao seu redor.
Nesse ponto, ainda tínhamos uma idéia vaga do que seria Macaé de Cima. Víamos o lugar como uma pequena vila, perdida nas montanhas, com casinhas bem posicionadas e com uma igrejinha pequena, porém bonita, no centro.
Mas não foi isso que encontramos. As casas se encontram distantes, quilômetros, umas das outras, às vezes, perdendo-se em bifurcações, verdadeiros labirintos, onde somente alguém familiarizado com o local, poderia andar tranquilamente.
Descoberto isso, e ainda com alguns quilômetros para se chegar a qualquer lugar habitado e que nos lembrasse de alguma forma o mundo que havíamos deixado lá embaixo, continuamos a caminhar.
Caminhando lentamente, alias. Lembrem-se de que éramos acompanhados por alguém de cento e vinte quilos.
Pra nossa sorte, e principalmente, pra alívio do nosso amigo, conseguimos uma carona. John, um inglês de oitenta anos, que se passaria tranquilamente por alguém de sessenta, explicou-nos que conhecia e freqüentava Macaé de Cima, há mais de quarenta anos. E que ao se aposentar a sete anos, viera morar definitivamente ali. Ele também nos informou que as estradas e o acesso não haviam melhorado muito, desde que começara a freqüentar o lugar.
John nos convidou para ficar em sua casa, enquanto esperávamos por uma carona até o Hotel Fazenda São João, onde, tentaríamos conseguir uma autorização para acampar. Mas já havíamos perdido tempo demais, e ainda tínhamos muito que fazer. Assim, fomos deixados em frente a uma porteira (sem portão), que nos levaria até o que, até então, pensávamos ser, o orquidário do senhor David Miller.
-*-
Guiados pelas informações cedidas por John, subimos cerca de dois quilômetros por uma estradinha cercada dos dois lados por verde. Abaixo, se não fosse por uma espessa névoa, provavelmente teríamos uma bela visão: mais verde.
Por fim, encontramos uma pequena casa, com a janela entreaberta e a chave na porta. Chamamos e batemos palmas, mas ninguém nos atendeu. Ainda assim, achamos que poderíamos ficar na pequena varanda, dividindo espaço com a lenha cortada, protegendo-nos da chuva e, enfim, comendo.
Tiramos as mochilas e bolsas das costas e começamos a fazer sanduíches. Aproveitamos para abrir uma garrafa de licor de cacau, que havíamos comprado. Ainda não sabíamos, mas aquele licor seria a única coisa alcoólica que tomaríamos em nossa pequena excursão.
Enquanto lanchávamos, fomos brindados com a chegada do casal Miller, que desciam em seu pequeno Gurgel, até a cidade Nova Friburgo, onde iriam fazer algumas compras. Ao nos ver, imediatamente pararam o carro e vieram ao nosso encontro, enquanto nós tentávamos arrumar a pequena bagunça de sacolas e farelo de pão, que havíamos feito.
Nos apresentamos e falamos de nossas intenções de fazer uma matéria sobre a reserva ambiental de Macaé de Cima. Enquanto isso, David e Izabel abriram a porta da casa e nos convidaram a entrar. Uma vez lá dentro, nos mostraram os quartos, a cozinha e os dois banheiros. E nos convidaram a ficar ali, até que voltassem de suas compras, e pudessem nos dar a devida atenção.
Enquanto víamos os dois descerem pela mesma estrada que havíamos percorrido, nos parabenizávamos pela sorte de ter conseguido um abrigo temporário. Curiosamente, a euforia inicial logo cedeu lugar a uma paranóia típica daqueles acostumados a viverem em centros urbanos.
Aproveitamos o tempo livre para investigar nossas acomodações. A casa tinha dois pequenos banheiros, um deles completo com chuveiro e, como viemos a descobrir depois, água quente, e um lavabo. Havia três quartos, dois deles nos fundos da casa, do lado de fora. Cada quarto contava com até três ou quatro camas, com os colchões guardados no primeiro quarto e os travesseiros depositados em uma pequena estante num corredor de acesso. A cozinha estava bem equipada, com diversas panelas, copos, pratos e talheres, além de um fogão a lenha (que era o que esquentava a água do chuveiro).
Na sala, havia uma grande mesa de madeira, cercada por seis cadeiras e um bom sofá. Mas o que se destacava, sem sombra de dúvidas, era as duas estantes recheadas de livros em pelo menos três línguas, algumas revistas especializadas para orquidófilos e umas duzentas revistas em quadrinhos da Turma da Mônica e Disney. E, embora houvesse lâmpadas no teto, não havia energia elétrica.
Estava claro que David e Izabel não viviam ali. Ali mais parecia uma espécie de república, pronta a abrigar grupos de estudantes e especialistas que viessem visitar o local.
Mas ainda estávamos nos sentindo um pouco desconfortáveis. Essa espécie de cordialidade e receptividade, a muito se extinguira do mundo de onde viemos. Não era de se estranhar que um de nós começasse a levar a sério, a idéia de que estávamos em um filme de terror. Tentando relaxar, acendemos o fogão a lenha e fizemos algo para comer, enquanto líamos algumas revistas ou folheávamos um livro.
Quando David e Izabel retornaram, já estávamos mais calmos e seguros. O casal nos convidou a passar a noite ali, pois estava chovendo muito e a noite logo iria chegar.
Novamente nos encontramos numa situação pouco comum a qualquer um de nós. Sem ter pra onde ir, sem energia elétrica e com o relógio biológico despreparado para nos levar para cama com o sol poente e tirar-nos da mesma, com o sol nascente, passamos boa parte da noite, conversando, lendo e comendo.
Por fim, o sono nos pegou de jeito e derrubou um a um, começando por nosso amigo Cristiano, cujos roncos eram divertidamente interrompidos, cada vez que um de nós o chamava pelo sobrenome. Infelizmente, menos de cinco minutos depois, ele já estava roncando, de novo.
Aproveitamos a hibernação de nosso amigo, para discutir as ações do dia seguinte. Acordaríamos cedo, entrevistaríamos o casal e seguiríamos em frente, sem saber ao certo para onde.
-*-
Na manhã seguinte, a buzina do carro do senhor Miller, despertou--nos de nosso sono. “Por aqui se acorda cedo”, disse enquanto nos convidava para subir até sua casa, onde poderíamos tomar um café quente e ficar a par do seu trabalho.
David nos explicou que a casa realmente é usada por estudantes e visitantes, normalmente biólogos e naturalistas.
Enquanto subíamos até a casa de David, o carro era seguido por seus dois labra-latas, como eles carinhosamente apelidados. O mais jovem dos cachorros, insistia em demonstrar seu carinho, subindo nas pessoas e correndo em volta do carro em movimento. “Um dia desses, esse cachorro ainda vai ser atropelado.”
A casa de David é uma visão particularíssima. Isolada, cercada pela Mata Atlântica por todos os lados e com uma vista de fazer inveja, embora a neblina continuasse nos brindando com sua intransponibilidade visual. Há apenas um gerador que cede luz elétrica para a casa e um celular com sinal de, pasmem, Rio das Ostras.
David nos disse que morava em Mury desde o inicio da década de sessenta. Estava a trabalho no Brasil, quando um amigo, ciente de sua simpatia pelas orquídeas, o trouxe para Nova Friburgo. “Encontrei aqui, as mesmas orquídeas que minha avó tinha, lá na Irlanda. E soube que não sairia mais daqui.”
David e Izabel adquiriram uma área na cabeceira do Rio das Flores, afluente do Rio Macaé, onde vivem há mais de 1500m de altitude. Infelizmente, boa parte da área havia sido queimada, e o casal se empregou na tarefa de estudar o tempo que levaria para uma regeneração da floresta. “O ciclo do café devastou quase todo o estado do Rio, tudo o que restou são semi-desertos. A terra não vale nada, é um pasto cheio de carrapato. São necessários mais de trinta anos, para que a mata readquira o seu vigor. E mesmo assim, cada terreno tem sua características próprias, o tempo que o sol fica sobre ele, a umidade, o grau de pluviosidade...”
O casal também tinha uma outra área reservada a preservação, com 1100m de altitude, mas a neblina nos impedia de ver a mesma.
Enquanto tomávamos café, David e Izabel nos mostraram um exemplar de seu novo livro, Serra dos Órgãos: sua história e suas orquídeas. O livro, co-escrito por David, Izabel, o inglês Richard Warren e o alemão Helmut Seehawer, era fruto de uma pesquisa de mais de dez anos.
Perguntados sobre incentivos e ajuda financeira, riem. “Nos disseram que ‘pesquisa não é cultura’. E como vai se fazer um livro sem pesquisa?” O casal trabalha com consultoria ambiental e cria faisões e marrecos, para vendê-los aos restaurantes da região. “Temos o Gurgel e uma Kombi de 86, que está sempre quebrando, devido as estradas precárias. As pesquisas foram feitas com dinheiro de nosso próprio bolso. Contamos com alguma ajuda, apenas na impressão, onde duas ong’s inglesas interessaram-se pelo projeto.”
“Percebemos que ninguém se interessará em financiar as pesquisas, mas com o produto em mãos, as coisas mudam, relativamente, de figura.”, explica-nos David.
Enquanto conversávamos, tivemos a grata visita inesperada de Helmut Seehawer, que trazia uma amiga que estava de passagem pelo Brasil, para dar uma olhada no livro. Helmut ainda nos deixou ver algumas das aquarelas que ele preparara para o livro, descrevendo e ilustrando as orquídeas das subtribos Pleurothallidinae.
O livro seria publicado dentro de alguns dias, pela Editora Scart (www.editorascart.com), e era uma descrição das origens de um dos centros de endemismo mais ricos do mundo, além de expor como e porque os colonizadores europeus quase o destruíram. Sem deixar de buscar argumentos para a interrupção da destruição final, e finalmente, porque devemos conservar o que ainda resta, iniciando sua reconstituição.
São mais de seiscentas espécies de orquídeas de 110 gêneros, localizadas em toda a Serra dos Órgãos, desde Tinguá até São Fidélis, numa extensão de mais de 250 km, do nordeste ao sudeste do Estado. A cadeia da Serra dos Órgãos ocupa menos de 1,0% do território nacional, contendo, aproximadamente, 25% das espécies e 45% dos gêneros das orquídeas nativas.
As orquídeas são emblemáticas da Mata Atlântica original e, sem esta, a maioria das espécies seria condenada à extinção, como o resto da biodiversidade.
David explicou-nos que o próximo projeto do grupo é o de provar que a conservação das florestas existentes, bem como o reflorestamento da Cadeia da Serra dos Órgãos ainda é o melhor e mais barato método para garantir o suprimento de água o ano inteiro para os usuários dos vales e ao longo do litoral norte do Estado do Rio de Janeiro.
Despedimo-nos de Helmut, que tinha de levar sua amiga embora, e fomos convidados por David e Izabel, para ver algumas espécies de orquídeas. David deixou claro que ele não mantinha um orquidário, as orquídeas que veríamos, eram todas naturais dali.
Izabel aproveitou para nos mostrar algumas curiosidades, como orquídeas menores que um dedo e outras, cujas folhas simulam similaridades com uma espécie de capim pouco apreciada por bois. “Cada orquídea tem um inseto que a polinize. Não há predadores na natureza, as coisas funcionam em perfeito equilíbrio. O único ocupado em destruir é o Homem.”
“Temos algumas orquídeas que foram trazidas para cá, por nós mesmos. Vocês podem vê-las em alguns troncos e galhos pelo quintal, mas são exceções, só estão aí, porque foram encontradas caídas, correndo o risco de serem esmagadas e perdidas. Por isso, as trouxe.”
Com isso, despedimo-nos e nos preparamos para ir embora, mas não sem antes assinarmos um livro de visitantes que o casal, orgulhosamente, mantém.
De volta a casa onde passáramos a noite, percebemos que seria impossível seguir viagem. A chuva havia molhado todas as nossas roupas, e não seria desonesto dizer, que estávamos realmente cansados, embora nos sentíssemos muito bem.
-*-
Na volta, conseguimos uma outra carona. João Luiz, um carioca que mantinha uma casa em Macaé de Cima, para passar seus finais de semana, era, também, um conhecido dos Miller e ainda nos perdoou por ter sujado seu carro, de lama.
Por fim, paramos para descansar e esperar o ônibus, em frente a um pequeno pub. Enquanto ligávamos para casa, começamos a conversar com a proprietária da Casa Boiadeiro, Sigrid, que diz ter encontrado em Macaé de Cima, um refúgio para toda a confusão e caoticidade que era sua vida no Rio.
“O contato com o verde, muda você”, ela nos disse. E, naquele momento, nós sabíamos que era verdade.
Posted at 06:11 pm by Anti-Monitor
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Mar 31, 2006
Essa é uma história real.
Em algum lugar,
que algumas vezes,
até pode ser aqui.
Estava uma boa manhã para se chapinhar na água.
* * *
O buraco era pequeno. Mas grande o bastante para que uma menina de oito anos pudesse passar.
Naturalmente, ele não foi usado apenas uma vez. Tampouco, era a menina, a única a fazer uso do mesmo.
E as coisas não acabaram, quando as rodas atreladas de um trator vermelho, selaram a entrada, no final da década de noventa.
* * *
A mãe iria atrasar o almoço, enquanto tentava convencer o pai bêbado a tomar um banho. Provavelmente, resultaria num momento doloroso de violência verbal, seguido de sexo nem um pouco romântico. Aí, o pai estaria calmo o suficiente para almoçar, sem que se queixasse de coisas tolas, como o hábito da filha de comer de boca aberta, ou até mesmo de cantar à mesa. Coisas tolas, que igualmente poderiam terminar em violência.
Aplacada a ira do pai, a mãe chamaria a garota de volta.
Mas, enquanto isso, era bom que a pequena fizesse algo para se distrair. E ela faria o que mais gostava.
Do quintal até o rio, não eram necessários, cem passos, e o mais perigoso dessa viagem, era atravessar uma estrada pela qual, passavam no máximo três carros por dia. E não estavam na hora do rancho.
Sentar-se à beira do rio, correr de um lado para o outro, subir na mangueira que havia por ali e até nadar, eram ótimas e divertidas atividades. Quando se estava com outras crianças.
Mas a garota estava sozinha ali. Embora sentar-se à beira do rio, fosse-lhe uma atividade extremamente prazerosa (visto que era de uma inteligência e contemplatividade incomuns para sua idade), não lhe era tão relaxante fazê-lo sozinha. Correr de um lado para o outro, também se mostrava como uma ação um tanto quanto idiota, quando sozinha. Afinal, quem ela pegaria?
Não era época de mangas, e em verdade, sempre tivera um pouco de receio, quanto a cair da árvore.
E nadar não era seu forte, embora, tivesse de admitir que estava muito quente para julho. E foi isso que a fez tirar as roupas, dobrá-las cuidadosamente e colocá-las numa reentrância. Não era agradável quando algum traquinas lhe roubava as roupas. Da última vez, acabará ficando marcada pela cinta do pai, por uma semana.
Então, entrou na água, apenas de calcinha. Um pouco grande, de elásticos folgados, é verdade. Mas bonitinha, e deveria durar ainda mais um ano.
Não houve coelhos apressados ou portas sem chaves que não dessem pra lugar algum. Houve apenas o buraco. Um tropeção, um escorregão, ou um mergulho desajeitado. Não importa realmente.
A garota caiu no buraco.
Ao sair do quarto, ainda ajeitando a calcinha sob a saia, limpando o sêmen que começava a secar entre as coxas, e torcendo para que o arroz não tivesse queimado, a mãe se pôs a gritar pela filha. Não era um grito desesperado, mas costumava ser auto e eficiente o bastante, pra que a menina, do rio, em meio aos gritos das outras crianças, pudesse ouvir e corresse pra casa, sem nem mesmo se preocupar em olhar para os lados, quando atravessasse a estrada.
Naquele dia, o grito não surtiu efeito. A menina não veio.
* * *
Nada realmente extraordinário. A garota sobreviveu mais de quinze minutos imersa num buraco dentro de um rio em movimento.
A mãe nem havia saído pra procurar, quando um homem a cavalo passou e viu um brilho intenso sob a água. Achou que fosse um relógio. Era a garota.
Saiu de lá, apenas com um ligeiro mal estar, e no colo do homem que a salvara, vomitou. Estava recomposta.
O pai chamava pro almoço.
Os pais, claro, não perceberam quando a menina começou a falar sozinha. Tampouco notavam suas excursões noturnas à margem do rio.
Ela parecia esperar que algo saísse dali, embora muitas vezes, também fosse vista em estranhas companhias.
* * *
Da primeira vez em que caíra no buraco, a menina apenas assustou-se quando foi salva do outro lado. O homem de cavanhaque lhe saudou sorridente, e lhe perguntou onde estavam seus pais. Ela apontou pro outro lado da estrada, mas não havia nada lá.
O homem sorriu de forma embaraçada e lhe perguntou o que fazia dentro do rio.
Nadando, oras!, foi a resposta que recebeu.
E quem seriam seus pais?
O Tião da Cooperativa e Madalena.
Certamente, ele não conhecia a mãe da menina. E havia Tiões demais na Cooperativa, pra que uma identificação imediata fosse feita. E ela morava lá, do outro lado da estrada?
Absolutamente.
Mas só há mato, ali.
A casinha era por ali. Quase não havia mato. Tem mato demais. Não tinha tanto mato, há dois minutos.
O homem de cavanhaque foi interrompido. Era uma bonita senhora, com olhos de tigre. Acho que a mocinha devia voltar, querido; foram as palavras da mulher.
Pelo...?
Pelo rio.
Então, disse o homem para a garota, que examinava com curiosidade a situação em que se metera desde que saíra do rio, acho que você deveria voltar por ali.
Mas, emendou a mulher, volte quando quiser.
Está com medo?
De quê?, perguntou a garota.
Do rio.
Eu não tenho medo de sonhos, moço.
E ela mergulhou de volta.
Foi quando o homem a cavalo lhe salvou. E como agradecimento, recebeu uma golfada no peito. Também foi quando ela passou a viver entre os dois mundos...
E a porta foi aberta...
* * *
... Para um terceiro mundo.
Isso aconteceu em julho.
Não era algo que realmente pudesse incomodar alguém. Em ambos os mundos, as pessoas viam a menina com certa inocência, e até algum incentivo para sua grande imaginação. Não havia recalques ou mesmo castigos para as imagens que a menina dizia ver.
Ambos os mundos julgavam-se reais, e com exceção da menina e da mulher de olhos de tigre e seu marido, parecia que ninguém mais notava aquela co-existência.
As cidades eram bem parecidas, com alguma diferença na geografia e nas pessoas que viviam por ali. Embora, muitas das pessoas se repetissem, suas qualidades eram bem diferentes de uma cidade pra outra. Enquanto aqui, um homem era um mendigo, ali era um dono de bar. Outros alternavam funções de donos de postos de gasolina e pobretões mal-encarados que nunca saiam de suas casas.
Macuco e Pouso Alegre. Assim eram chamadas as cidades.
A menina era originalmente de Pouso Alegre, embora começasse a desconfiar que também pertencesse a Macuco.
Nunca mais esteve com a mulher de olhos de tigre, tampouco com seu marido. Mas vez ou outra ainda via coisas que eram certamente estranhas. Por mais de uma vez, sentiu-se observada por um estranho homem de casaco comprido, chapéu e guarda-chuva. Mesmo no calor de outubro, ela podia ver o homem com aquelas roupas.
Também havia um interessante garotinho que andava saltando, usando uma máscara branca, que lhe cobria completamente a face, de forma que por mais de uma vez, ela pensou que ele seria atropelado, já que certamente, não podia ver nada com aquela máscara.
* * *
No meio de Macuco e Pouso Alegre, estava Santa Amena.
Mas não havia nada de santo naquela cidade. Era parcialmente parecida com as outras duas.
Mas não havia hierarquia social que sobrevivesse ali, tampouco homem varão que não tivesse de gritar por socorro quando sozinho.
No último ano, um dos monstros que habitavam Santa Amena havia conseguido transpor os limites que os separavam das outras cidades, e penetrou em Macuco. Ele fora auxiliado pelo medo e pela crença da população local, de que havia um lobisomem no lugar. Felizmente, a cidade se transformou em um circo, e não era ele o palhaço a se apresentar no palco.
Acabou sendo expulso por uma outra lenda local, e um guarda foi posto para vigiar as entradas.
O monstro voltou, mas não sem antes garantir que o guarda seria manchado com o seu sangue. Com tal mancha, o guarda passou a ser o lobisomem. Abandonou o guarda chuva e o chapéu que lhe haviam sido presenteados e foi embora.
Mas já era tarde, o monstro já havia ido mais longe que qualquer outro poderia ter ido. Enfiou uma vara tão fundo na veia da cidade, que provocou um buraco.
Depois de furar o céu, o monstro alcançou o inferno. Acabou unindo Macuco e Pouso Alegre.
Foi quando a menina caiu.
* * *
O monstro havia preparado tudo. Era dezembro, véspera de natal. O sol estava pronto para ser engolido pela lua.
O processo era bem simples.
Durante a noite, sentada sozinha à margem do rio, a garota pensava no que lhe havia acontecido.
Ela via dois mundos diferentes, e realmente não lhe era totalmente compreensível, porque apenas ela podia fazer aquilo. Ela ainda mergulhou no buraco outras vezes, mas agora não havia muitas diferenças. Não havia mais mulheres de olhos de tigre, apenas eventuais crianças cegas e de cabelos brancos ou homens cabeludos de guarda-chuva e chapéu.
Sempre que mergulhava, não parecia mais sair do outro lado. E aquilo começava a lhe soar desagradável, se em Pouso Alegre já lhe tomavam como louca, em Macuco se achava que ela fosse órfã!
O pai havia saído pra pescar. Era o que sempre dizia, mas ela e a mãe (e toda a cidade) sabiam que ele ia era buscar sua outra família (uma mulher mais jovem, com um ventre bom, que poderia lhe dar outros filhos) em Euclidelândia. Em pleno Natal!
A pequena não chorava, era verdade, mesmo quando via pela fresta da parede, a crueldade com que o pai penetrava a mãe (certa vez, até lhe queimou as mãos com cera de vela), ou quando lhe sobrava a surra, e tinha de ceder ante a cinta do pai, ela agüentava e não deixava que seus olhos ficassem úmidos.
Mas isso não significa que ela não sentisse medo. Quando viu o rio secar em sua frente, e em seu lugar surgir um liquido avolumado e grosso (com um gosto metálico!, acentuou a menina, após experimentar) em seu lugar, ela assustou-se.
* * *
Todos os anos, naquele exato ponto onde o buraco estava, antes do mesmo ser inadvertidamente fechado (o que fez com que as feras despertassem ansiosas e famintas), passou a ser realizado anualmente, durante o ano novo (nas duas cidades), um ritual de macumba, que conjeturou-se não havia propósito algum bem definido.
Incorro aqui, na informação de que durante boa parte de sua vida, minha avó forneceu sua energia nesses rituais. Porém, tendo a mesma morrido mais de vinte anos de meu nascimento, me foge a memória, a forma como tomei conhecimento de tais eventos.
* * *
O plano do monstro era unir as duas realidades, e ele quase conseguiu.
A menina (para a qual, os monstros de Santa Amena eram invisíveis), seria a conexão ideal. Mas havia algo errado. Não podiam conectar Macuco. Por alguma razão, os sete anos que ainda faltavam para o fim da década, mais os três que já haviam passado, estavam sendo condensados em doze curtos meses. O evento com o lobisomem repetia-se e transformava-se assustadoramente.
O monstro porém, conseguiu pegar Pouso Alegre.
* * *
A menina não conseguiu entender plenamente o que se passava, e provavelmente nunca entenderia.
Mas entendeu. A mulher com olhos de tigre a encontrou, caída na margem do rio, a alimentou e explicou.
Quando caiu no rio de sangue, a menina o contaminou, porém, inevitavelmente, seria sugada para Santa Amena. Não havia o que se fazer.
Mas a população ainda podia ser salva. O plano do rio que inundaria a cidade, trazendo em barcos feitos de ossos, os monstros de Santa Amena, poderia ser sabotado.
Aproveitando o momento pelo qual a cidade de Macuco passava, a mulher de olhos de tigre fez um pacto com as nuvens, e pediu que chovesse tanto em Santa Amena, que o tempo tivesse de parar por um ano. Em Pouso Alegre, as pessoas saiam as ruas para festejar o natal, e viram o céu que chovia sangue. Voltaram para suas casas e choraram. Suas lágrimas correram juntas e caíram sobre o rio. Em Macuco, ainda não era natal. Mas as lágrimas de seus concidadãos foram sentidas, e o cheiro de sangue se fez chegar a seus lares. Na primeira trovoada, uma melancolia profunda fez com que todos chorassem.
Foi a primeira vez que as cidades se uniram. Aqueles de Macuco que tinham seus reflexos em Pouso Alegre tornaram-se um só. Pouso Alegre passou a ser passado, um nome quase esquecido de Macuco.
Os poucos que não tinham reflexos foram aprisionados e condenados a viver entre os monstros de Santa Amena. Entre eles, estava a mãe da garota.
A garota passou a viver entre os mundos. Invisível. Não envelheceria.
* * *
Aqueles que saíram para pescar ou ver suas amantes encontraram uma Pouso Alegre vazia, na manhã de natal.
- Diego Aguiar Vieira -
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Nov 22, 2005
Diego Aguiar Vieira
e Raphael Lopes Martins
Controle o salto, sem saber onde vai cair. Caia como um gato e chore.
Eu e pessoas conhecidas, e queridas, e felizes, e desconhecidos presentes em meu pensamento. Minha
Chore lágrimas de sabão e enfeite colheres de espermicidas. Onde está a razão?
ter medo? Por que ele anuncia que está perto do fim? Ele não sabe que não
Um barco, um rio, pessoas flutuando. Um pensamento transbordante, e eu.
som de fundo. A primeira curva. Feliz...
Uma estrada. Reta. Cinco quilômetros. Deuses e eu, caminhando pela estrada reta. Minha pequena e
existe um fim? De fato, não existe um fim... Nos enganamos. Auto... Auto-
que desistiram de cantar. Sinta a teia de aranha que se balança. Até quando vai
Olhe ali, bata a cabeça no teclado. T6y7y Três vezes. escute os pássaros mortos
A segunda curva, e uma reta menor, e mais rica e feliz, apesar da pobreza. O caminho de casa enfim.
Um verso curto. Uma flor! Não deveria pensar. Imediações me assombram. Merda!
Grama, uma barraca, uma senhora, um verde sem fim de mistérios sublimes...
Esqueça a lógica! O pênis é uma chave e a vagina uma fechadura? Esqueça a
Esqueça tudo, não olhe pra trás (o bicho pode pegar)
Meu caminho. Uma estrada tortuosa, símbolo de minha vida. A alegria de ver pessoas queridas, um
Sinto-me levemente dolorido. Deveria esquecer e fazer de novo, mas seria errado
Não seja modelo de nada. Apenas arrebente a fuça desses idiotas.
Gostaria que pudessem sentir...
contato com o outro. Salve todos os mundos de se perverterem em bons cidadãos.
Um peixe num rio marrom, com um caranguejo amarelo em seu sangue puro.
Teve fim? Só interrupções, que no frigir dos ovos, não são interrupções de
intuição. Vote contra o rei e sinta-se vivo. Assista tv e chore com a morte
Espero que por aí, perdida no vácuo.
Pro inseto na luz, qual o tamanho do mundo? Isso importa? Esqueça as fórmulas!
Um porto, pessoas, um morro, meus pés, areia, caminho, grande árvore, grande árvore, grande arvore.
Verde, por todo lado verde, em um ciclo vital desconhecido e vívido apenas aos pequenos seres nele
Mexa o nariz, Samantha, cruze os braços, Jeannie! Salve esse mundo de entrar em
O profundo som, o som do mar em suas voltas e revoltas cenas...
feliz estrada do outro lado . Estrada reta...
alma viaja no leito de um rio marrom.
Quando vamos acabar? Melhor não perguntar. Gregory Corso e sua bomba-poema...
qualquer coisa. Não sei...
"Leve suas folhas debaixo do braço, o poema pronto e maldito. Um guarda-chuva,
presentes.
do Tony Hopkins.
também. Está chovendo."
fato.
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Jul 2, 2005
Aqui, Agora; Antes e Depois
Tudo cinzento. Quase sem cor. Só cinza e preto. Cinza igual olho de menino de rua, que de tão verde, chega a ser cinza. Olho no singular, porque o outro ficou branco na base da porrada. O menino ali, sentado, olhando com seus olhos cinza/verde/branco para o nada. E eu, na calçada, imaginando no que ele está pensando, no que ele vai fazer da vida, depois que a loja abrir, e algum funcionário o espezinhe. Tudo cinzento, igual filme dos anos oitenta. Prédios velhos e sujos (como os que eu via do simulacro que era a janela do ônibus, enquanto vapt vupt, eu passava por lá, célere, para não ser contaminado com a realidade, apenas esboçando um laivo de tristeza em solidariedade ao laivo de tristeza que também se viam surgir em meus pais – e que na mesma serelepidade, desapareciam). Prédios e ruas de visual atoalhado por boêmios de cara limpa e fígado ruim, e descortinados por gente fina e camarada (igual um tal de João Antônio, artista profundo, exímio chutador de tampinhas). É atemporal essa sujeira, desde os chicletes grudados na calçada (formando uma poça pegajosa, mais perigosa e traiçoeira do que qualquer poça de leptospirose), passando pelos guris, que de tão mortos e desesperançados, parecem estar aqui que nem estátua. Vem pra cá, vem pra Cidade e você vai ver essas estátuas! UHA! Ipi uha! Estátua boazinha, que brinca com bolas no sinal, engole fogo, cachaça e porra (se der dinheiro), cheira cola, pó e dióxido de carbono (que ainda deve de ser a droga mais perigosa). E os becos, que de tão modorrentos, ganham ares de buracos negros... Toda a luz é sugada ali dentro, tudo de bom deixa de existir, e a esperança se esconde atrás de um pecado (ou sombra) qualquer, de modo que não seja vista, porque se for, é apedrejada e lhe tomam as contas que traz no pescoço. Mas todo mundo é feliz, de vez em quando. Na chuva, alguns podem tomar banho (enquanto outros praguejam da gripe mal curada). Na copa todo mundo é igual. Principalmente se ganha. Ah, que delícia! Fica igual que deve ser o Natal, todo mundo é feliz, sorri e se cumprimenta... Mas ainda não dão a porra da esmola! No táxi, apesar da companhia (adiantada, pelo menos, seis anos) do Homem do Guarda-Chuva (depois fomos pra Minas. Ou vamos. Bem, não importa, essas são outras histórias!), o que impera é o jogo do Flamengo. Flamengo contra Vasco. Vasco. Nem ligo pro resultado. Não, tem coisa melhor do que o fulano tocou pra cicrano, que repassou pra beltrano e foi gol! É, tem mais que isso tem o grito do pessoal. Ópio espetacular! Vixe, imagine só que ainda não cismaram de botar uma tv gigante em cada esquina. Servir e proteger! Oxe! Quer dizer, tv pra todo mundo! Ou algo assim. O que importa, é que na hora do plim plim de Malhação, já ia logo ver todo mundo correndo pra saber como é que o bandido-porém-simpático iria fazer para se safar de sua mais nova falcatrua. E isso pode durar um ano inteiro (quando não, mais), onde todo mundo pára, olha, discute, xinga, descarrega. Abandona o mundo cinza de cinema dos anos oitenta e se entrega ao mundo multi-color do século xis xis i. Eita trem bom!, igual futebol!
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May 8, 2005
E outra Fera dá as caras. A Manticore está de volta! Com as participações de Antonio Eder, André Diniz, Falex, Abs Moraes, Léo Andrade, Diego Aguiar Vieira (este que vos fala!!), Allan Ledo, Marcio Massula Jr. Hector Lima, Irapuã e Michelle Fiorucci e Élcio Chicanowski. O trabalho está ótimo. A história escrita por mim, é desenhada pelo Allan Ledo, e isso é algo maravilhoso pra mim, porquê foi com uma história arte-finalizada por esse cara (Horas Mortas - roteiro e desenhos do, também ótimo, DW), que eu tive vontade de me tornar um roteirista de quadrinhos. Uma curiosidade: a história escrita por mim, tem um protagonista bem conhecido, por aqueles que lêem a série Missão: Anos de Chumbo, lá no Mundo Perdido. A Manticore pode ser comprada no site da Nona Arte, e lá, você também pode conferir um preview exclusivo da revista. Quadrinhos nacionais na veia!
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Quem tem medo de Lobisomem?
Se você não conhece a cidade de Macuco, aí vai um pequeno resumo do que você encontrará ao vir para estas bandas: num primeiro momento, você vai ficar chocado, e pensará que os moradores dessa antiga vila, que se consagrou distrito no dia dez de setembro de mil oitocentos e noventa e cinco, não passam de bêbados e desempregados andando sem rumo pelas ruas, e que, o agora município de Macuco, não passa de mais uma cidade pequena, perdida num enorme vale, caminhando para a falência. Então, quando você já estiver acomodado (se porventura, não der meia volta e sair pelo mesmo caminho pelo qual entrou), perceberá que a cidade ainda não se mostrou completamente. Não, ainda haverá algo mais velho, sinistro e ameaçador para se mostrar. Algo tão terrível, que faria o ebola ajoelhar-se e pedir penico. “Vamos lá”, você deve estar dizendo “nada é tão terrível assim”. E pode ser que você esteja com a razão, afinal, mesmo uma cidade com menos de vinte quilômetros quadrados, não pode estar, ainda no séc. XXI, arraigado a crenças tão absurdas e nocivas. E não estou falando de mortos esquecidos como Deus e seus bem aventurados anjos, ou de sabatinas explosivas, contra alguma espécie de tolerância inter-racial ou sexual. Não, em Macuco você estará bem sendo você mesmo, desde que não o seja publicamente, aí, você provavelmente encontrará problemas (nada tão selvagem e bruto quanto a K.K.K. raptando-lhe no meio da noite, mas mesmo assim, um tanto quanto indigesto, de qualquer forma).
O mal em Macuco reside na política. Ok, não exatamente na política, mas naqueles que tem o controle desta (e se você acha que o controle está nas mãos dos eleitores, peço que pare de ler esse texto, agora, porquê você pode ficar muito chocado). O poder em Macuco está a gerações, nas mãos de duas ou três famílias, num eterno pingue-pongue maquiavélico, que, parece, não vai acabar tão cedo.
É claro, devemos a algumas dessas pessoas, algumas coisas importantes, como a emancipação da cidade (somos um município deveras novo, com menos de dez anos de existência), algumas escolas (o que não é sinônimo de boa educação), praças e pavimentação. Ah, e é claro, temos um enorme campo de futebol, onde já jogou a seleção do Kuwait (em mil novecentos e oitenta e dois, sob a tutela do técnico Parreira), e logo ao lado do campo de futebol, temos o Macuco Esporte Clube (que consiste basicamente de uma sauna e duas piscinas – e é claro, uma mesa de sinuca e outra de totó, ou pebolim, pros mais chegados). Alias, o M.E.C. (como é carinhosamente chamado), merece um parágrafo todo especial, dado o refreamento monetário que vem recebendo nos últimos tempos. Ou melhor, o velho e bom preconceito. Diga-se de passagem, que mesmo sendo sócio por sacrifício de meus pais (que compraram um título, vendendo a alma ao diabo), nunca freqüentei o dito cujo. Primeiro porquê nunca fui voltado para os esportes, segundo, porquê a companhia nunca me agradou. Por alguma razão, nunca me senti à vontade na presença dos abastados, talvez porque eu não fosse um deles (o que fazia com que eles também não se sentissem bem na minha presença), ou talvez porquê a falsidade reinante ali, nunca tenha realmente me agradado (sempre fui muito propenso ao vômito). Deixando de me alongar, vou direto ao assunto, a última administração do clube, numa baita jogada política (que, honestamente, teve e tem todo o meu apoio), fez com que as taxas pros títulos do mesmo, baixassem drasticamente. E é claro, uma boa parte da população de baixa renda aproveitou-se disso, e amancebou-se para dentro daqueles muros misteriosos (coitados, depois de tantos anos, curiosos para saber o que havia ali dentro, separados pelo enorme muro formado de dinheiro e cacos de vidro, devem de ter ficado extremamente decepcionados). E com tantas pessoas do “lado B”, freqüentando o lugar, não tardou o pessoal do bolso acolchoado, ficar bem incomodados. Agora, a nova administração tenta dar um jeito nisso. Pois bem, que façam aquilo que acharem justo. Aqui em casa, não pagamos mais as mensalidades, faz um tempo.
Ok, agora eu peço que você relaxe. Quero que você se lembre de um episódio em especial do Pica-Pau, onde dois homens de famílias diferentes, munidos de trabucos e enormes barbas, duelam há mais de vinte anos, por alguma questão idiota. Lembra-se disso? Pois deveria! Todo mundo se lembra de episódios do Pica-Pau! Particularmente, me vem um a memória, onde uma bruxa tem sua vassoura roubada pelo anti-herói, e tem de comprá-la de volta, e “lá vamos nós”! Lembra-se? Ok, tanto faz! Bem, o que importa, é que se você chegar em Macuco, provavelmente ao se deparar com esse estranho cenário, pensará tratar-se de um lugar, onde, no passado, todos andavam assim, armados, com barba por fazer e discutindo pendengas velhas e inúteis.
Mas, por mais que seja difícil de se acreditar nisso, nem sempre Macuco foi assim. Um dia, os ônibus passaram por dentro da cidade (hoje, passando pela digníssima “estrada de trás”, a cidade fica em segundo plano), um dia Macuco teve festas das quais se valia falar a pena. Nunca fomos um ponto turístico, e nem nos achamos no direito de ser um, mas houve um dia em que você não precisava estar empregado na prefeitura ou na cooperativa para sobreviver, em que as lojas vendiam bem... Eu me lembro desses dias!
E é por causa desses dias, que eu escrevi A Fera de Macuco. Mais de um ano de pesquisas, contribuições das mais diversas pessoas, um período mágico e aterrador, em que eu encontrei uma Macuco, que julgava não existir, geraram uma história em quadrinhos de cento e cinqüenta páginas (doze capítulos de doze páginas cada um, mais dois apêndices de três páginas cada).
A história se passa no inicio dos anos setenta, quando um suposto lobisomem aterrorizou a cidade, comendo galinhas e assustando pobres velhinhas. Obviamente, tudo não passou de uma grande piada (embora, minha avó e outras pessoas muito respeitáveis, tenham me afirmado categoricamente, que estiveram diante de tal ameaça – e eu acredito muito nessas pessoas, está bem?), de forma que a cidade ganhasse alguma projeção pelo país. E ganhou, tanto que o jornal Gazeta de Notícias e O Dia, noticiavam, pelo menos uma vez por semana, alguma novidade sobre o assunto, enquanto que a (R.I.P.) Tv TUPI, enviou para cá, o apresentador Sergio Bittencourt, para ver com os próprios olhos o que acontecia. E este teve até a oportunidade de entrevistar até o lobisomem!
A repercussão, foi tal, que até o Reginaldo Faria fez um filme baseado (levemente baseado) no que ocorreu aqui: Quem tem medo de Lobisomem?
E é buscando essa Macuco que eu não cheguei a conhecer pessoalmente, que eu escrevi essa história, e aqui, você tem a oportunidade de ver duas páginas desenhadas inteiramente no computador, pelo grande Antonio Eder, e que não estarão na versão final do trabalho, mas foram disponibilizadas pelo mesmo, para que você as visse, aqui.
Posted at 04:45 pm by Anti-Monitor
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Apr 17, 2005
Foi uma noite terrível,
cheia de sonhos maravilhosos,
onde eu podia estar com você.
Como eu gostaria de sonhar de olhos abertos,
sonhar que tenho você comigo.
Se somos tão senhores de nós mesmos,
como gostamos de afirmar [os poetas],
por quê não podemos controlar nossos sonhos?
Por quê este, também
não pode ser um sonho?
Um daqueles sonhos
com final feliz...
Posted at 10:07 am by Anti-Monitor
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