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2085 texto 1 Diego Aguiar Vieira A Criação do Mundo das
Maravilhas por Santana Conselheiro “(...)as
portas foram arrancadas de seus batentes (...) e apenas as dobradiças foram
poupadas para que servissem como recordação silenciosa de uma história triste e
assustadora.” A Fábula da
Hora final,
Dan Propper A observação
da história, dizia Maquiavel, nos permite prever os acontecimentos que virão a
seguir. Você
provavelmente nunca ouviu falar de Maquiavel, e apesar de Dan Dropper, cujo
poema utilizei como entrada para este artigo, ser ainda mais recente (uns
quinhentos anos depois de Maquiavel, e cerca de cento e trinta anos atrás,
aproximadamente), tenho certeza de que você também nunca ouviu falar dele. Isso porque
a arte e a literatura têm sido sistematicamente apagadas do nosso way of life. Há uma série de estudiosos que
dizem que já não há mais razão para sonharmos com o futuro, se já vivemos no
mesmo. Esse é um bom argumento, muito promovido em centros educacionais e na
tv, graças a ele, os cinemas estão fechados, as bibliotecas estão vazias e os
museus não passam de depósitos. Peço-lhes
que embarquem ao meu lado, por algumas linhas, numa segura viagem no tempo, que
certamente não lhes causará mal algum, além de uma certa retomada de suas
consciências. -*- Por volta de
2009, um pequeno grupo de artistas, intelectuais e lideranças mundiais,
reuniram-se sob os tetos dourados da Primeira Junta da Ciência Em todas as
suas empreitadas anteriores, Hubbard havia falhado miseravelmente, na maioria
das vezes deixando essas ocupações com o manto da fraude e do plágio. Mas aqui,
conseguindo reunir as maiores cabeças da arte underground sob suas
especulações, Hubbard logrou êxito, atraindo multidões dispostas a ouvir sobre
como a ciência salvaria o mundo, sobre como deveríamos nos preparar para
receber os que viriam, sobre como éramos os Precursores. Com o tempo,
ficou claro que Hubbard não passava de um charlatão, de que toda a sua campanha
se tratava de apenas mais uma caminhada para um novo Dia da Decepção, mas ainda
podemos ver adeptos da PJC por aí. E que o Búfalo Dourado lhes guarde a fé! A
contribuição de Hubbard para a potencialização deste mundo em que vivemos,
transcorreu nesses três anos em que esses artistas, intelectuais, lideranças
mundiais passaram juntos, sob o mesmo teto. Todos eles tinham uma coisa em
comum, eram ricos. Os mais ricos a caminharem sobre a Terra. E, é claro,
a salvação de Hubbard também estava ligada ao trabalho, à junta das coisas
materiais, pois, como ele mesmo pregava, isso era a prova de que você estava
apto a gerar deuses. Não sem
muita dificuldade, você poderia encontrar na Grande Rede, fotos do dia em que
essas pessoas saíram da casa de Hubbard. Mas a Grande Rede hoje em dia guarda
mais poeira do que a parte de cima do meu aparelho de tv, então, eu duvido que
alguém vá dar uma olhada... Com
dezesseis guerras acontecendo só na Europa, e milhares de pessoas saindo as
ruas, fantasiadas de Homens-Sanduíche, com frases incompreensíveis em sua
maioria (Buenas Salenas!, O Telefone vai tocar! Tudo vai ficar bem!),
contando também com algumas que necessitavam de bem menos explicações, e por
isso mesmo, eram provocadoras de pânico, como O Fim está próximo! O mundo ainda teve de lidar com o retorno de
toda essa corja da PJC, afirmando em jornais e revistas que o fim do mundo
estava próximo, e que o mesmo não poderia cair de outra forma, que não fosse
pelas nossas mãos. Meu tio-avô,
o famoso escritor, que você provavelmente não conhece, Pedro Conselheiro se
matou nesse dia. -*- O fim do
mundo tinha data marcada agora, e era preciso fazer com que tudo corresse bem
até lá. Não houve
como nenhum governo impedir o que acontecia. A liberdade de imprensa (essa
coisinha que já está deixando de existir), estava em seu auge, e como sempre,
cada capa ou manchete anunciando o fim do mundo, era certeza de vendas altas. As coisas
começaram de fato no dia vinte e dois de dezembro de dois mil e doze, quando os
catorze homens mais ricos do mundo, subiram no alto da Bolsa de Nova Iorque e
jogaram para a multidão que tomava as ruas, cerca de onze bilhões de dólares.
Foi um ato simbólico, claro, mas também impulsionou um desequilíbrio profundo
na economia mundial. No mundo
inteiro, cenas parecidas começaram a ocorrer. O que, no inicio, começou como
uma guerra, com as pessoas matando umas as outras, em razão de se ter mais
dinheiro, logo se organizou. O caos deu lugar à anarquia. E com essa, logo se
percebeu que não havia mais pobreza, e com isso, também não havia mais razão de
ser ter dinheiro. Poucas cédulas foram salvas da grande fogueira, e a maioria
hoje se guarda aos cuidados de colecionadores e museus. -*- Daí em diante, todos sabem o que ocorreu. Não nos
voltamos completamente para a natureza, mas a duras penas, entendemos que um
equilíbrio era necessário. A ciência foi finalmente encorajada, relatos dizem
que Deus foi encontrado morto num beco, abraçado a uma prostituta de cabelos
vermelhos. Prosperamos
mais do que nunca. Ainda há algum foco de fé, aqui e ali, mas esses são
encorajados, e até mesmo parecem estar voltando a ter alguma influência em
áreas menos populosas. Nada com que se preocupar, dizem os especialistas. “Jamais
estivemos tão bem”, dizem os noticiários. A ausência de líderes, finalmente não
é mais sentida.
Curiosamente, eu sei que ninguém lerá essa revista, assim como sei que
meus questionamentos serão ignorados, e que "todos
esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva". Mas
está tudo bem, enquanto tivermos o que comer, beber e amar. Tudo estará bem.
Não é? |
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