Entry: 2085 texto 1 Jul 23, 2007



2085 texto 1

Diego Aguiar Vieira

 

A Criação do Mundo das Maravilhas

por Santana Conselheiro

 

(...)as portas foram arrancadas de seus batentes (...) e apenas as dobradiças foram poupadas para que servissem como recordação silenciosa de uma história triste e assustadora.

A Fábula da Hora final, Dan Propper

 

  A observação da história, dizia Maquiavel, nos permite prever os acontecimentos que virão a seguir.

  Você provavelmente nunca ouviu falar de Maquiavel, e apesar de Dan Dropper, cujo poema utilizei como entrada para este artigo, ser ainda mais recente (uns quinhentos anos depois de Maquiavel, e cerca de cento e trinta anos atrás, aproximadamente), tenho certeza de que você também nunca ouviu falar dele.

  Isso porque a arte e a literatura têm sido sistematicamente apagadas do nosso way of life. Há uma série de estudiosos que dizem que já não há mais razão para sonharmos com o futuro, se já vivemos no mesmo. Esse é um bom argumento, muito promovido em centros educacionais e na tv, graças a ele, os cinemas estão fechados, as bibliotecas estão vazias e os museus não passam de depósitos.

  Peço-lhes que embarquem ao meu lado, por algumas linhas, numa segura viagem no tempo, que certamente não lhes causará mal algum, além de uma certa retomada de suas consciências.

 

-*-

 

  Por volta de 2009, um pequeno grupo de artistas, intelectuais e lideranças mundiais, reuniram-se sob os tetos dourados da Primeira Junta da Ciência em Los Angeles, organização fundada nos idos dos anos sessenta, com a liderança do escritor de ficção cientifica e mago, Howard “Búfalo” Hubbard.

  Em todas as suas empreitadas anteriores, Hubbard havia falhado miseravelmente, na maioria das vezes deixando essas ocupações com o manto da fraude e do plágio. Mas aqui, conseguindo reunir as maiores cabeças da arte underground sob suas especulações, Hubbard logrou êxito, atraindo multidões dispostas a ouvir sobre como a ciência salvaria o mundo, sobre como deveríamos nos preparar para receber os que viriam, sobre como éramos os Precursores.

  Com o tempo, ficou claro que Hubbard não passava de um charlatão, de que toda a sua campanha se tratava de apenas mais uma caminhada para um novo Dia da Decepção, mas ainda podemos ver adeptos da PJC por aí. E que o Búfalo Dourado lhes guarde a fé!

  A contribuição de Hubbard para a potencialização deste mundo em que vivemos, transcorreu nesses três anos em que esses artistas, intelectuais, lideranças mundiais passaram juntos, sob o mesmo teto. Todos eles tinham uma coisa em comum, eram ricos. Os mais ricos a caminharem sobre a Terra.

  E, é claro, a salvação de Hubbard também estava ligada ao trabalho, à junta das coisas materiais, pois, como ele mesmo pregava, isso era a prova de que você estava apto a gerar deuses.

  Não sem muita dificuldade, você poderia encontrar na Grande Rede, fotos do dia em que essas pessoas saíram da casa de Hubbard. Mas a Grande Rede hoje em dia guarda mais poeira do que a parte de cima do meu aparelho de tv, então, eu duvido que alguém vá dar uma olhada...

  Com dezesseis guerras acontecendo só na Europa, e milhares de pessoas saindo as ruas, fantasiadas de Homens-Sanduíche, com frases incompreensíveis em sua maioria (Buenas Salenas!, O Telefone vai tocar! Tudo vai ficar bem!), contando também com algumas que necessitavam de bem menos explicações, e por isso mesmo, eram provocadoras de pânico, como O Fim está próximo! O mundo ainda teve de lidar com o retorno de toda essa corja da PJC, afirmando em jornais e revistas que o fim do mundo estava próximo, e que o mesmo não poderia cair de outra forma, que não fosse pelas nossas mãos.

  Meu tio-avô, o famoso escritor, que você provavelmente não conhece, Pedro Conselheiro se matou nesse dia.

 

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  O fim do mundo tinha data marcada agora, e era preciso fazer com que tudo corresse bem até lá.

  Não houve como nenhum governo impedir o que acontecia. A liberdade de imprensa (essa coisinha que já está deixando de existir), estava em seu auge, e como sempre, cada capa ou manchete anunciando o fim do mundo, era certeza de vendas altas.

  As coisas começaram de fato no dia vinte e dois de dezembro de dois mil e doze, quando os catorze homens mais ricos do mundo, subiram no alto da Bolsa de Nova Iorque e jogaram para a multidão que tomava as ruas, cerca de onze bilhões de dólares. Foi um ato simbólico, claro, mas também impulsionou um desequilíbrio profundo na economia mundial.

  No mundo inteiro, cenas parecidas começaram a ocorrer. O que, no inicio, começou como uma guerra, com as pessoas matando umas as outras, em razão de se ter mais dinheiro, logo se organizou. O caos deu lugar à anarquia. E com essa, logo se percebeu que não havia mais pobreza, e com isso, também não havia mais razão de ser ter dinheiro. Poucas cédulas foram salvas da grande fogueira, e a maioria hoje se guarda aos cuidados de colecionadores e museus.

 

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  Daí em diante, todos sabem o que ocorreu. Não nos voltamos completamente para a natureza, mas a duras penas, entendemos que um equilíbrio era necessário. A ciência foi finalmente encorajada, relatos dizem que Deus foi encontrado morto num beco, abraçado a uma prostituta de cabelos vermelhos.

  Prosperamos mais do que nunca. Ainda há algum foco de fé, aqui e ali, mas esses são encorajados, e até mesmo parecem estar voltando a ter alguma influência em áreas menos populosas. Nada com que se preocupar, dizem os especialistas.

  “Jamais estivemos tão bem”, dizem os noticiários. A ausência de líderes, finalmente não é mais sentida.

  Curiosamente, eu sei que ninguém lerá essa revista, assim como sei que meus questionamentos serão ignorados, e que "todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva".

  Mas está tudo bem, enquanto tivermos o que comer, beber e amar. Tudo estará bem. Não é?

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