Entry: A morte com um sorriso Aug 19, 2007



Diego Aguiar Vieira

 

  Tô na busca, agora. Dê licença, abra caminho, xispa daí!

  Esses olhinhos pequenos, essa dor de quem ama. Podiam ser olhos esbugalhados, também. E felicidade. E ódio. Tudo isso, misturado, batido no liquidificador, pronto pra servir.

  Ou então, essa coisa que não cessa. Essa coisa doída, esse cansaço de não se fazer nada, de não ser nada.

  A menina. She’s leaving home, por natureza. Ou é isso, ou vira escrava de tudo, cobra venenosa, faiscando na escuridão, pronta pra explodir. Um pacote pronto pra se abrir, milagres em ebulição, ouro na lama.

  A garganta fechada, pronta pra gritar, contida, inda mais dolorida que o tempo dos tempos pode sacudir. Qualquer coisa assim. Na falta de sentido, os pensamentos só fazem doer, remoer, cogitar as possibilidades.

  Tudo o que fará, tudo o que poderia ter feito. Da vez em que o carro quase lhe pegou. O pânico, mais tarde, na cama, solitária ao lado de um homem que não é nada, triste. Um “e se...”, na cabeça. E se tivesse sido atropelada?

  E o desespero diante da idéia de estar sorrindo, de ser feliz com a idéia de estar morta, longe daquilo tudo, livre de todas essas decisões precipitadas, essa dor que não serve de nada.

  Respira fundo, volta a realidade que não gosta. Mas que existe. Amaldiçoadamente, ela existe.

  Aí, a busca desesperada, a necessidade de encontrar um poço onde se afogar, beber tanto de uma taça, até que a própria taça acabe sendo engolida, também. Uma dor sem tamanho. Alcoolismo de vida. Viciada em adrenalina.

  Mas nem é uma boa vida, também. Não é melhor do que a vida tola que tem.

  Diabo, nem mesmo é alguma coisa de verdade. É só a raiva de sempre.

  Cenário: boteco num morro qualquer. Chacina. Tombaram uns oito. Tombaram. Nada de morte chorosa. Ninguém quer morrer, mas ninguém esperto quer, depois de morto, ficar com fuça de santo, espevitado, tema de marchinhas da liberdade e da paz. Morreu, morreu. Não importa o que tinha pela frente, pelamor. Só morreu.

  A moça bonita, dezesseis anos, ta lá, também. Três tiros. Um no pescoço. Dois na barriga. E com um sorriso estatelado. Escancarado. Do tipo que impacienta.

  A família lamente. Boa família, repetem. Riquinha. Saia de casa como quem não quer nada. Ia pra onde se sentia gente. Pouco importa se estava certa ou errada. O sorriso assusta.

  Um policial, o primeiro a chegar, Admilson não-sei-das-quantas, não consegue tirar os olhos. E nem é dos peitos durinhos e bonitos. É o sorriso. O sorriso que nunca vai sair.

  Tá lá, sem dor. Enterrada em caixão fechada. O sorriso, ricto. Vai até a caveira. Até o outro lado.

  E sem ser santa, está bem?

   1 comments

Jessica
October 20, 2007   06:18 PM PDT
 
Que bizarro. Me econtrei nesse teu texto. Muito bom, por sinal.

Enfim, só achei que precisava ser comentado.

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