Entry: Variante Gotemburgo Oct 6, 2007



  Então, eis que percebo com tristeza que nunca lhes indiquei Esdras do Nascimento.

  O homem é uma coisa! Talvez, um dos menos conhecidos de nossa literatura, hoje. Talvez, até por seus textos serem datados. Escritor que fez a cabeça da classe média nos anos setenta, talvez seja um pouco condenado, por ter se mantido neutro nos anos de ferro. Obviamente, seus personagens carregavam a dose necessária de insatisfação, para que também não figurassem como meros "produtos do sistema", como diziam na época (e, como alguns poucos tolos, continuam a se referir).

  O livro tema desta pequena crítica é, talvez, sua maior obra. O livro nasce de temas parecidos com os anteriores, com suas analises da classe média carioca, destrinchando-a em ritmo de novela das oito, com dramas e romances sufocantes.

  Em Variante Gotemburgo, no entanto, Esdras inova ao investir numa narrativa baseada nas jogadas de xadrez que nomeia o livro.

  A forma como as personagens são apresentadas provavelmente é o que há de mais estilisticamente saboroso na obra. Cada personagem, é uma peça, cada peça, um capítulo. Peças brancas são homens e negras, as mulheres. Um movimento para frente, avança rumo ao futuro do personagem, para o lado, entrega-o a um momento de reflexão, e quando vai para trás, leva-nos ao seu passado. Por fim, cada casa representa duas páginas de texto.

  Os personagens prestam depoimento a outro personagem, cuja peça, tenho de admitir, não sei qual é. Os capítulos narrados por esse entrevistador nos informam de suas intenções em produzir um romance (este que está em nossas mãos), a respeito da construção de um romance. Desde a organização dos fatos, até suas intenções para com o leitor. Doce metalinguagem.

  O livro foi inicialmente apresentado como tese de doutorado em letras. Sobre isso, Esdras diz em entrevista à Rodrigo de Souza Leão: “Foi um escândalo. Para mim, parecia natural um compositor apresentar uma sinfonia como tese de doutoramento em música, um artista plástico apresentar uma tela, um diretor de cinema, um filme. Cada um na sua área. Eu achava que isso seria o óbvio. Mas a academia pensava, e continua pensando, de maneira diferente.”

  Adepto da filosofia de Graciliano Ramos de que palavras são feitas para dizer e não enfeitar, Esdras é um escritor de estilo seco, quase sem paixão, eu ouso dizer.

  Ainda assim, há essa insatisfação, essa vontade de viver e ir além, que deveria contaminar a todos nós, mas, infelizmente, tem se tornado cada vez mais absurda no mundo de clichês em que vivemos.

   2 comments

Gustavo
November 10, 2007   02:33 PM PST
 
Prezado,

Você sabe como posso conseguir um exemplar, nem que seja cópia, do livro do Esdras - A Variante Gotemburgo - ?
Meu email é gsmaior@hotmail.com

Abraço,
Gustavo
Becca
October 14, 2007   04:43 PM PDT
 
Não conhecia até então.
Bjão.

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