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Este era o
problema do senhor Camponésio Campelo Suarcida: odiava imediatamente todos
aqueles que conhecia. Aos vinte e
três foi embora de seu lar e jurou nunca voltar. Os três anos seguintes foram
perdidos num estupor momentâneo da liberdade. Infelizmente, boa parte dessa
liberdade dissolveu-se junto com a primeira decepção amorosa (o equivalente a
uma batida da polícia no apartamento de um traficante inexperiente). Já contava
vinte e sete e quando teve a primeira conquista amorosa. Aos vinte e nove não
via caminho algum. Voltou a cair na estrada. Armou
negócio em alguma vila africana. Um bar temático que seis meses mais tarde
estampou manchetes de jornal de todo o globo, como o primeiro de uma série de
atentados que culminariam com um golpe militar transmitido ao vivo por
celulares no mundo inteiro. A estrada
fez-se novamente necessária. Os cinco anos mais felizes de sua vida perderam-se
nas ondas, como lágrimas na chuva. Havia conhecido uma garota e, com ela, teve
um filho. A criança afogou-se aos três anos de idade, pondo fim ao primeiro
ciclo de felicidade na vida de nosso protagonista. Sua vida passou a oscilar em
vibrações como que as de músicas setentistas. Alcança os
quarenta. Recebe a notícia da morte da mãe. Liga para casa e descobre que o pai
também já está morto. Não há mais para onde voltar. Os próximos
dez anos são dedicados a viagens pelo globo. Amantes, tesouros, mistérios,
mestres, poder. Tudo que lhe é permitido, ele passa a procurar. Algumas vezes,
até se engana, pensando ter chego ao fim de tudo. A roda gira,
metade de sua vida abandona o seu corpo. A notícia de um filho bastardo, uma
reação insensível de sua parte.* Uma nova busca por sentido começa. Os olhos se
apequenam, a visão turva. A escuridão consome. Os setenta
anos não são mais que sombras. Uma nova etapa de viagens começa. Conhece o
mundo, tem a rara oportunidade de ofender as pessoas nas mais diferentes
línguas. Chegam os
oitenta e o cheiro sono pesado da morte começa a escorrer para forte de seu
corpo. Não houve
visitas. Apodreceu no hospital. Passou a
vida entre mundos que não lhe queriam e padeceu justamente daquele que só os
mundos mais povoados podem apresentar: solidão. E morreu. * - Vim apenas para lhe dizer que sou uma boa
pessoa. Sou cristão, ajudo minha comunidade, tenho filhos e os amo. - Se o mundo
é tão bom por que veio me perturbar? - Vim te
perdoar. - Isso é
sério? Espero que não. Camponésio
Campelo Suarcida levanta-se de sua cadeira, enquanto aperta a fivela de seu
cinto. Ele pára a um palmo de distância do rosto de Valério, seu filho, e deixa
que uma fumaça fria saia de seu nariz. - Eu... - Você o
quê? Quer que eu me sinta culpado de sua vidinha de merda? Ou quer que eu fique
horrorizado por não ter compactuado pra essa tua mente quadrada e moralista de
católico de bairro nobre? - Você não
tem o direito de falar essas coisas comigo. - Eu não sou
seu pai. Nunca fui. Você tem meu material genético, apenas. E eu não tenho
nada. Vá em frente, me processe. Mas, por favor, me deixe em paz. |